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Juízes 4-5: Débora e Baraque, o Cântico da Vitória
Uma profetisa julga Israel, um comandante hesita, os carros de ferro atolam no Quisom e uma mulher numa tenda decide a guerra. Depois, Israel canta.
A Mesma História Contada Duas Vezes
Depois dos oitenta anos de paz conquistados por Eúde, o ciclo volta a girar: "Os filhos de Israel tornaram a fazer o que era mau perante o Senhor" (Juízes 4:1). Desta vez o opressor não vem de fora, como Moabe ou a Mesopotâmia. É um rei cananeu, de dentro da própria terra, com um exército que parecia invencível.
A história de Débora e Baraque tem uma particularidade: é contada duas vezes. O capítulo 4 narra os fatos em prosa. O capítulo 5 canta a mesma vitória em poesia, um dos poemas mais antigos da Bíblia. Os dois juntos mostram não só o que aconteceu, mas como Israel sentiu e celebrou o que Deus fez.

Uma Profetisa Debaixo da Palmeira (Juízes 4:1-10)
O Senhor entrega Israel a Jabim, "rei de Canaã, que reinava em Hazor" (Juízes 4:2). Hazor já tinha sido derrotada e queimada por Josué (Josué 11:10-11), mas a cidade se reergueu. O comandante do exército era Sísera, e o motivo do medo é dito com clareza: "Jabim tinha novecentos carros de ferro e, por vinte anos, oprimia duramente os filhos de Israel" (Juízes 4:3).
Nesse tempo, quem julgava Israel era uma mulher.
Débora é a única pessoa em Juízes chamada de profetisa, e a única que aparece julgando casos do povo, como Moisés fazia no deserto (Êxodo 18:13). Ela não é apresentada como alguém que tomou um lugar que não era seu. O texto a mostra exercendo a função com naturalidade, e o povo indo até ela.
Débora chama Baraque, de Quedes de Naftali, e lhe transmite uma ordem de Deus: reunir dez mil homens de Naftali e Zebulom no monte Tabor. O Senhor mesmo atrairia Sísera ao ribeiro Quisom e o entregaria (Juízes 4:6-7). A resposta de Baraque é hesitante: "Se fores comigo, irei; porém, se não fores comigo, não irei" (Juízes 4:8).
Débora aceita ir, mas avisa: "não será tua a honra da investida que empreendes; pois às mãos de uma mulher o Senhor entregará a Sísera" (Juízes 4:9). O leitor pensa logo que essa mulher é Débora. O texto vai surpreender.
A Batalha do Quisom (Juízes 4:11-16)
Antes da batalha, o texto faz uma pausa curiosa para apresentar um personagem secundário: Héber, o queneu, que tinha se separado do seu clã e armado as tendas perto de Quedes (Juízes 4:11). Os queneus eram parentes do sogro de Moisés e tinham vindo com Israel (Juízes 1:16). Mas Héber estava em paz com Jabim (Juízes 4:17). O detalhe parece solto, mas será decisivo.
Sísera reúne os novecentos carros junto ao Quisom (Juízes 4:13). Então Débora dá a ordem:
Baraque desce do Tabor, "e o Senhor derrotou a Sísera, e todos os seus carros" (Juízes 4:15). O capítulo 4 não diz como. O cântico do capítulo 5 dá a pista: "os céus gotejaram" (Juízes 5:4), e "o ribeiro Quisom os arrastou" (Juízes 5:21). Uma chuva forte teria transformado o vale em lama e o ribeiro em correnteza. A arma mais temida da época virou um peso. Sísera salta do carro e foge a pé (Juízes 4:15).

Jael, a Mulher da Tenda (Juízes 4:17-24)
Sísera corre para a tenda de Jael, mulher de Héber, contando com a paz entre Jabim e aquela família (Juízes 4:17). Jael o recebe com palavras tranquilizadoras, "Entra, senhor meu, entra na minha tenda, não temas" (Juízes 4:18), cobre-o e lhe dá leite quando ele pede água (Juízes 4:19). Exausto, ele dorme. Ela então pega uma estaca da tenda e um martelo, e o mata (Juízes 4:21).
Quando Baraque chega perseguindo Sísera, é Jael quem lhe mostra o inimigo morto (Juízes 4:22). A profecia de Débora se cumpre de um jeito inesperado: a mulher que recebe a honra não é a profetisa, mas uma estrangeira que morava numa tenda. O capítulo encerra deixando claro quem agiu: "Assim, Deus, naquele dia, humilhou a Jabim, rei de Canaã" (Juízes 4:23).
O Cântico de Débora (Juízes 5)
"Naquele dia, cantaram Débora e Baraque" (Juízes 5:1). Como Moisés e Miriã cantaram depois da travessia do mar (Êxodo 15:1, 20-21), Israel responde à vitória com música. O cântico começa louvando o povo que "se ofereceu voluntariamente" (Juízes 5:2) e depois descreve o Senhor marchando desde Seir, com a terra tremendo e as nuvens derramando água (Juízes 5:4-5).
O poema também mostra como era a vida antes da vitória. As caravanas tinham parado, as estradas estavam perigosas, as aldeias desertas, "até que eu, Débora, me levantei, levantei-me por mãe em Israel" (Juízes 5:6-7). E aponta a raiz do problema: "Escolheram-se deuses novos; então, a guerra estava às portas" (Juízes 5:8).
- Vieram: Efraim, Benjamim, Maquir (de Manassés), Zebulom e Issacar (Juízes 5:14-15).
- Arriscaram a vida: Zebulom e Naftali, "nas alturas do campo" (Juízes 5:18).
- Discutiram e ficaram: Rúben, "entre os currais para ouvires a flauta" (Juízes 5:15-16).
- Não se moveram: Gileade, Dã e Aser (Juízes 5:17).
- Amaldiçoada: Meroz, que "não veio em socorro do Senhor" (Juízes 5:23).
O cântico celebra a batalha em linguagem poética: "Desde os céus pelejaram as estrelas contra Sísera" (Juízes 5:20). A vitória não foi só de soldados. A própria criação lutou ao lado de Israel.
Depois vem o elogio a Jael: "Bendita seja sobre as mulheres Jael" (Juízes 5:24). E o poema termina com uma cena de contraste. Longe dali, a mãe de Sísera olha pela janela e pergunta por que o carro do filho demora (Juízes 5:28). As damas a consolam imaginando despojos e tecidos bordados (Juízes 5:30). O leitor já sabe o que ela não sabe. É um final duro, que mostra o outro lado da guerra.
- Juízes 4:1-10: a opressão de Jabim, Débora como juíza e o chamado de Baraque.
- Juízes 4:11-16: Héber, o queneu, e a derrota de Sísera junto ao Quisom.
- Juízes 4:17-24: Jael e a morte de Sísera; Deus humilha Jabim.
- Juízes 5:1-11: o cântico de Débora e o Senhor que marcha desde Seir.
- Juízes 5:12-31: as tribos que vieram e as que ficaram, Jael e a mãe de Sísera.
- Textos relacionados: Êxodo 15:1, 20-21; Êxodo 18:13; Josué 11:10-11; Juízes 1:16; Salmos 83:9; Hebreus 11:32-34.