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Série Gênesis a Apocalipse Estudo 93 de 94 publicados Ver o mapa da série →

Juízes 3: Otniel, Eúde e Sangar

Os três primeiros juízes de Israel: um herói exemplar, um canhoto astuto diante do rei de Moabe e um lavrador com uma aguilhada de bois.

O Ciclo Começa a Girar

No capítulo 2, o livro de Juízes descreveu um padrão: Israel abandona o Senhor, cai nas mãos de inimigos, clama, e Deus levanta um libertador. Morto o libertador, tudo recomeça (Juízes 2:11-19). Era uma explicação geral. O capítulo 3 mostra o ciclo funcionando na prática, com nomes, lugares e números.

São três juízes em um só capítulo, cada um com um perfil diferente. Otniel é o modelo, quase um resumo do que um juiz deveria ser. Eúde é um homem improvável, canhoto, que usa astúcia para derrubar um rei. Sangar aparece em um único versículo, com uma ferramenta de lavrador na mão. Juntos, eles mostram que Deus pode libertar seu povo por caminhos muito diferentes.

Otniel, guerreiro israelita, à frente de seus homens, pronto para a batalha contra Cusã-Risataim

As Nações que Ficaram (Juízes 3:1-6)

Antes das histórias, o texto lista os povos que continuaram na terra: os cinco príncipes dos filisteus, os cananeus, os sidônios e os heveus do Líbano (Juízes 3:3). Eles ficaram por duas razões. Uma era prática: ensinar a guerra às gerações que não tinham lutado na conquista (Juízes 3:2). A outra era espiritual: "para saber se dariam ouvidos aos mandamentos que havia ordenado a seus pais por intermédio de Moisés" (Juízes 3:4).

O resultado da prova não demora. Israel passou a morar no meio desses povos, casou seus filhos e filhas com eles "e rendiam culto a seus deuses" (Juízes 3:6). Era exatamente o que a lei tinha proibido, e pelo mesmo motivo que a lei tinha dado: os casamentos "fariam desviar teus filhos de mim, para que servissem a outros deuses" (Deuteronômio 7:4).


Otniel, o Juiz Modelo (Juízes 3:7-11)

A primeira história segue o ciclo ao pé da letra. Israel fez o que era mau, "se esqueceram do Senhor, seu Deus; e renderam culto aos baalins e ao poste-ídolo" (Juízes 3:7). Deus os entregou a Cusã-Risataim, rei da Mesopotâmia, e eles o serviram oito anos (Juízes 3:8).

O poste-ídolo
A expressão traduz o hebraico asherah, nome de uma deusa cananeia e também do objeto de culto ligado a ela: um tronco ou poste de madeira posto de pé, às vezes uma árvore, junto aos altares. A lei de Moisés proibia colocar algo assim ao lado do altar do Senhor (Deuteronômio 16:21). O nome Cusã-Risataim, por sua vez, soa como "Cusã da dupla maldade", e muitos estudiosos acham que é um apelido dado pelos israelitas ao opressor.

Então Israel clama, e o Senhor levanta um libertador: Otniel, o sobrinho de Calebe que tinha conquistado Debir (Juízes 1:13). O texto é curto, mas diz o essencial:

Veio sobre ele o Espírito do Senhor, e ele julgou a Israel; saiu à peleja, e o Senhor lhe entregou nas mãos a Cusã-Risataim, rei da Mesopotâmia, contra o qual ele prevaleceu.

Repare na ordem. Primeiro o Espírito, depois o julgamento, depois a batalha. A vitória é atribuída ao Senhor, que "lhe entregou nas mãos" o inimigo. A terra ficou em paz quarenta anos (Juízes 3:11). Otniel não tem defeitos registrados, nem falas, nem dramas. É o padrão contra o qual os próximos juízes serão comparados, e o livro vai mostrar líderes cada vez mais distantes desse modelo.

O Espírito do Senhor nos juízes
Em Juízes, o Espírito do Senhor vem sobre pessoas para uma tarefa específica: com Otniel (Juízes 3:10), Gideão (Juízes 6:34), Jefté (Juízes 11:29) e Sansão (Juízes 14:6). No Antigo Testamento, o Espírito aparece com frequência dessa forma, capacitando alguém para uma missão naquele momento. Não significa que a pessoa se torne perfeita: Gideão, Jefté e Sansão tiveram falhas sérias mesmo depois disso.

Eúde, o Canhoto (Juízes 3:12-30)

Morto Otniel, Israel "tornou a fazer o que era mau perante o Senhor" (Juízes 3:12). Desta vez o opressor é Eglom, rei de Moabe, aliado aos amonitas e amalequitas. Eles tomam "a cidade das Palmeiras" (Juízes 3:13), nome dado a Jericó (Deuteronômio 34:3). A cidade da primeira grande vitória de Israel na terra estava agora nas mãos de um rei estrangeiro. A opressão durou dezoito anos (Juízes 3:14).

O povo clama, e Deus levanta "Eúde, homem canhoto, filho de Gera, benjamita" (Juízes 3:15). Há uma ironia aqui: Benjamim significa "filho da mão direita", e o libertador da tribo é canhoto. Mais adiante, o livro menciona setecentos benjamitas canhotos tão precisos com a funda que acertavam "uma pedra num cabelo" (Juízes 20:16).

Eúde entrega o tributo de Israel ao rei Eglom, de Moabe, sentado no trono em seu palácio

Eúde é encarregado de levar o tributo de Israel ao rei. Ele prepara um punhal de dois gumes, de um côvado, e o esconde "debaixo das suas vestes, do lado direito" (Juízes 3:16), onde os guardas, acostumados com homens destros, provavelmente não procurariam. Depois de entregar o tributo, ele volta sozinho e pede uma audiência a sós: "Tenho a dizer-te uma palavra de Deus" (Juízes 3:20).

A cena que segue é contada com detalhes crus e até com um humor ácido. Eúde mata o rei com a mão esquerda, tranca as portas e sai por outro caminho (Juízes 3:21-23). Os servos encontram as portas fechadas e pensam que o rei está "aliviando o ventre" (Juízes 3:24). A demora deles dá a Eúde o tempo de que precisava para fugir.

Como ler uma história tão violenta?
O texto narra a morte de Eglom sem pedir desculpas e sem transformá-la em regra. Muitos leitores lembram que Juízes descreve o que aconteceu, inclusive coisas que o próprio livro depois mostra como erradas, e nem tudo o que os personagens fazem é modelo de conduta. Aqui, porém, Eúde é chamado de "libertador" levantado pelo Senhor (Juízes 3:15), e a história é contada como a queda de um opressor. Há quem destaque a ironia de um rei poderoso derrotado por um homem que, aos olhos dos guardas, estava desarmado. Intérpretes judeus e cristãos sempre discutiram como conciliar essas narrativas com o restante das Escrituras.

Eúde chega às montanhas de Efraim e toca a trombeta. Os israelitas descem com ele, e a frase que ele diz mostra a quem atribui a vitória:

Segui-me, porque o Senhor entregou nas vossas mãos os vossos inimigos, os moabitas.

Eles tomam os vaus do Jordão, o lugar onde os moabitas precisariam atravessar para voltar para casa, e ninguém passa (Juízes 3:28-29). Moabe é subjugado, e a terra fica em paz oitenta anos, o período mais longo de paz registrado no livro (Juízes 3:30).


Sangar e a Aguilhada (Juízes 3:31)

O capítulo termina com um único versículo sobre um terceiro libertador:

Depois dele, foi Sangar, filho de Anate, que feriu seiscentos homens dos filisteus com uma aguilhada de bois; e também ele libertou a Israel.

A aguilhada era uma vara comprida, com ponta de metal, usada para tocar os bois no arado. Não era arma de guerra. Sangar usou o que tinha na mão. O cântico de Débora lembra que, "nos dias de Sangar", as estradas ficaram vazias e os viajantes andavam por desvios (Juízes 5:6), sinal de um tempo de insegurança. Também é a primeira vez que o livro menciona os filisteus como inimigos em combate; eles voltarão com força na história de Sansão.

Os três libertadores de Juízes 3
  • Otniel: contra Cusã-Risataim da Mesopotâmia; oito anos de opressão e quarenta de paz (Juízes 3:8-11).
  • Eúde: contra Eglom de Moabe; dezoito anos de opressão e oitenta de paz (Juízes 3:14-30).
  • Sangar: contra os filisteus, com uma aguilhada de bois (Juízes 3:31).
Conclusão: Deus usa quem ele levanta
Juízes 3 mostra o ciclo girando três vezes e, em cada uma, uma surpresa. Um herói conhecido, sobrinho de Calebe. Um canhoto de uma tribo pequena, que entra sozinho no palácio de um rei. Um lavrador com uma ferramenta de trabalho. Nenhum deles é o centro da história: em cada caso, quem "suscita" o libertador e "entrega" o inimigo é o Senhor. Mas o capítulo também deixa uma tristeza no ar. Depois de cada vitória, a paz dura enquanto vive o juiz, e então Israel esquece de novo. A pergunta que fica é se a nossa fidelidade depende de quem está ao nosso lado ou do Deus que nos libertou.
Referências Bíblicas
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