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Juízes 3: Otniel, Eúde e Sangar
Os três primeiros juízes de Israel: um herói exemplar, um canhoto astuto diante do rei de Moabe e um lavrador com uma aguilhada de bois.
O Ciclo Começa a Girar
No capítulo 2, o livro de Juízes descreveu um padrão: Israel abandona o Senhor, cai nas mãos de inimigos, clama, e Deus levanta um libertador. Morto o libertador, tudo recomeça (Juízes 2:11-19). Era uma explicação geral. O capítulo 3 mostra o ciclo funcionando na prática, com nomes, lugares e números.
São três juízes em um só capítulo, cada um com um perfil diferente. Otniel é o modelo, quase um resumo do que um juiz deveria ser. Eúde é um homem improvável, canhoto, que usa astúcia para derrubar um rei. Sangar aparece em um único versículo, com uma ferramenta de lavrador na mão. Juntos, eles mostram que Deus pode libertar seu povo por caminhos muito diferentes.

As Nações que Ficaram (Juízes 3:1-6)
Antes das histórias, o texto lista os povos que continuaram na terra: os cinco príncipes dos filisteus, os cananeus, os sidônios e os heveus do Líbano (Juízes 3:3). Eles ficaram por duas razões. Uma era prática: ensinar a guerra às gerações que não tinham lutado na conquista (Juízes 3:2). A outra era espiritual: "para saber se dariam ouvidos aos mandamentos que havia ordenado a seus pais por intermédio de Moisés" (Juízes 3:4).
O resultado da prova não demora. Israel passou a morar no meio desses povos, casou seus filhos e filhas com eles "e rendiam culto a seus deuses" (Juízes 3:6). Era exatamente o que a lei tinha proibido, e pelo mesmo motivo que a lei tinha dado: os casamentos "fariam desviar teus filhos de mim, para que servissem a outros deuses" (Deuteronômio 7:4).
Otniel, o Juiz Modelo (Juízes 3:7-11)
A primeira história segue o ciclo ao pé da letra. Israel fez o que era mau, "se esqueceram do Senhor, seu Deus; e renderam culto aos baalins e ao poste-ídolo" (Juízes 3:7). Deus os entregou a Cusã-Risataim, rei da Mesopotâmia, e eles o serviram oito anos (Juízes 3:8).
Então Israel clama, e o Senhor levanta um libertador: Otniel, o sobrinho de Calebe que tinha conquistado Debir (Juízes 1:13). O texto é curto, mas diz o essencial:
Repare na ordem. Primeiro o Espírito, depois o julgamento, depois a batalha. A vitória é atribuída ao Senhor, que "lhe entregou nas mãos" o inimigo. A terra ficou em paz quarenta anos (Juízes 3:11). Otniel não tem defeitos registrados, nem falas, nem dramas. É o padrão contra o qual os próximos juízes serão comparados, e o livro vai mostrar líderes cada vez mais distantes desse modelo.
Eúde, o Canhoto (Juízes 3:12-30)
Morto Otniel, Israel "tornou a fazer o que era mau perante o Senhor" (Juízes 3:12). Desta vez o opressor é Eglom, rei de Moabe, aliado aos amonitas e amalequitas. Eles tomam "a cidade das Palmeiras" (Juízes 3:13), nome dado a Jericó (Deuteronômio 34:3). A cidade da primeira grande vitória de Israel na terra estava agora nas mãos de um rei estrangeiro. A opressão durou dezoito anos (Juízes 3:14).
O povo clama, e Deus levanta "Eúde, homem canhoto, filho de Gera, benjamita" (Juízes 3:15). Há uma ironia aqui: Benjamim significa "filho da mão direita", e o libertador da tribo é canhoto. Mais adiante, o livro menciona setecentos benjamitas canhotos tão precisos com a funda que acertavam "uma pedra num cabelo" (Juízes 20:16).

Eúde é encarregado de levar o tributo de Israel ao rei. Ele prepara um punhal de dois gumes, de um côvado, e o esconde "debaixo das suas vestes, do lado direito" (Juízes 3:16), onde os guardas, acostumados com homens destros, provavelmente não procurariam. Depois de entregar o tributo, ele volta sozinho e pede uma audiência a sós: "Tenho a dizer-te uma palavra de Deus" (Juízes 3:20).
A cena que segue é contada com detalhes crus e até com um humor ácido. Eúde mata o rei com a mão esquerda, tranca as portas e sai por outro caminho (Juízes 3:21-23). Os servos encontram as portas fechadas e pensam que o rei está "aliviando o ventre" (Juízes 3:24). A demora deles dá a Eúde o tempo de que precisava para fugir.
Eúde chega às montanhas de Efraim e toca a trombeta. Os israelitas descem com ele, e a frase que ele diz mostra a quem atribui a vitória:
Eles tomam os vaus do Jordão, o lugar onde os moabitas precisariam atravessar para voltar para casa, e ninguém passa (Juízes 3:28-29). Moabe é subjugado, e a terra fica em paz oitenta anos, o período mais longo de paz registrado no livro (Juízes 3:30).
Sangar e a Aguilhada (Juízes 3:31)
O capítulo termina com um único versículo sobre um terceiro libertador:
A aguilhada era uma vara comprida, com ponta de metal, usada para tocar os bois no arado. Não era arma de guerra. Sangar usou o que tinha na mão. O cântico de Débora lembra que, "nos dias de Sangar", as estradas ficaram vazias e os viajantes andavam por desvios (Juízes 5:6), sinal de um tempo de insegurança. Também é a primeira vez que o livro menciona os filisteus como inimigos em combate; eles voltarão com força na história de Sansão.
- Otniel: contra Cusã-Risataim da Mesopotâmia; oito anos de opressão e quarenta de paz (Juízes 3:8-11).
- Eúde: contra Eglom de Moabe; dezoito anos de opressão e oitenta de paz (Juízes 3:14-30).
- Sangar: contra os filisteus, com uma aguilhada de bois (Juízes 3:31).
- Juízes 3:1-6: as nações deixadas para provar Israel e os casamentos mistos.
- Juízes 3:7-11: Otniel liberta Israel de Cusã-Risataim.
- Juízes 3:12-30: Eúde, o canhoto, e a queda de Eglom, rei de Moabe.
- Juízes 3:31: Sangar fere seiscentos filisteus com uma aguilhada de bois.
- Textos relacionados: Deuteronômio 7:3-4; Deuteronômio 16:21; Deuteronômio 34:3; Juízes 1:13; Juízes 5:6; Juízes 20:16.