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Série Gênesis a Apocalipse Estudo 91 de 104 publicados Ver o mapa da série →

Josué 23-24: Eu e a Minha Casa Serviremos ao Senhor

Já velho, Josué reúne Israel duas vezes, recorda tudo o que Deus fez e coloca o povo diante de uma escolha que cada geração precisa fazer.

As Últimas Palavras de Josué

A terra foi repartida, os levitas receberam suas cidades e as tribos do outro lado do Jordão voltaram para casa. O livro de Josué poderia terminar ali. Mas um líder que viu tanta coisa sabe que conquistar é uma etapa e permanecer fiel é outra. Por isso os dois últimos capítulos são discursos de despedida.

Josué fala duas vezes. No capítulo 23, a um grupo de líderes, ele dá conselhos e faz um alerta. No capítulo 24, a todas as tribos reunidas em Siquém, ele reconta a história de Israel e pede uma decisão. A pergunta é a mesma nos dois: depois de tudo o que Deus fez, a quem o povo vai servir?

Josué, muito idoso, sentado diante dos anciãos e chefes de Israel, fala sobre a fidelidade de Deus

Conselhos de um Velho Líder (Josué 23)

"Já sou velho e entrado em dias" (Josué 23:2). Josué começa lembrando o que todos tinham visto: foi o Senhor quem lutou por Israel (Josué 23:3). As vitórias não foram mérito do povo. Ainda havia nações na terra, e Deus prometia expulsá-las (Josué 23:5).

O primeiro conselho repete o que o próprio Josué tinha ouvido no começo do livro (Josué 1:7):

Esforçai-vos, pois, muito para guardardes e cumprirdes tudo quanto está escrito no Livro da Lei de Moisés, para que dela não vos aparteis, nem para a direita nem para a esquerda.

O risco agora não era a guerra, mas a convivência. Os povos que ficaram na terra tinham seus deuses, e Josué é bem concreto: não mencionar seus nomes, não jurar por eles, não servi-los (Josué 23:7). Em vez disso, "ao Senhor, vosso Deus, vos apegareis" (Josué 23:8). E o que sustenta essa fidelidade é o amor: "empenhai-vos em guardar a vossa alma, para amardes o Senhor" (Josué 23:11).

Depois vem o alerta. Se Israel se misturasse com aquelas nações e adotasse seus deuses, elas seriam "por laço e rede, e açoite às vossas ilhargas, e espinhos aos vossos olhos" (Josué 23:13). A mesma fidelidade que cumpriu as boas promessas cumpriria também as ameaças (Josué 23:14-15). Deus não muda conforme a conveniência do povo.


A História Contada de Novo (Josué 24:1-13)

Josué reúne todas as tribos em Siquém, e eles se apresentam "diante de Deus" (Josué 24:1). O lugar tem história. Foi em Siquém que Deus apareceu a Abrão e prometeu a terra à sua descendência (Gênesis 12:6-7). Foi perto dali, no monte Ebal, que Josué tinha lido a lei ao povo (Josué 8:30-35).

Desta vez, quem fala na primeira pessoa é o próprio Senhor, pela boca de Josué. E a história começa por um detalhe incômodo: os antepassados de Israel, "Tera, pai de Abraão e de Naor, habitaram dalém do Eufrates e serviram a outros deuses" (Josué 24:2). Israel não começou fiel. Começou com Deus chamando alguém do meio da idolatria.

A história que Deus reconta em Siquém
  • O chamado: Abraão tirado de além do Eufrates, Isaque, Jacó e Esaú (Josué 24:2-4).
  • O Egito: Moisés e Arão, as pragas e a travessia do mar (Josué 24:5-7).
  • O deserto e a Transjordânia: a vitória sobre os amorreus e a bênção de Balaão (Josué 24:8-10).
  • A terra: Jericó, os povos de Canaã e a terra recebida como presente (Josué 24:11-13).

O verbo que mais aparece é "eu": eu tomei, eu dei, eu enviei, eu vos tirei, eu os entreguei. Tudo foi feito por Deus, "não com a tua espada, nem com o teu arco" (Josué 24:12). E a conclusão é um retrato da graça:

Dei-vos a terra em que não trabalhastes e cidades que não edificastes, e habitais nelas; comeis das vinhas e dos olivais que não plantastes.
Uma aliança com a forma das alianças antigas
Muitos estudiosos notam que Josué 24 segue um esquema conhecido nos tratados do antigo Oriente Próximo entre um grande rei e um povo: apresentação de quem faz a aliança, histórico dos benefícios já concedidos, exigência de lealdade, testemunhas, registro escrito e consequências. Josué 24 tem quase todos esses elementos. A diferença é que, aqui, o rei é o Senhor, e os benefícios recontados são a própria história de Israel.

Escolhei, Hoje (Josué 24:14-25)

Só depois de recontar o que Deus fez é que Josué pede uma resposta: "temei ao Senhor e servi-o com integridade e com fidelidade; deitai fora os deuses" (Josué 24:14). A ordem é importante. A obediência vem como resposta à graça, não como condição para recebê-la.

Porém, se vos parece mal servir ao Senhor, escolhei, hoje, a quem sirvais: se aos deuses a quem serviram vossos pais que estavam dalém do Eufrates ou aos deuses dos amorreus em cuja terra habitais. Eu e a minha casa serviremos ao Senhor.

Repare nas opções. Josué não oferece a escolha entre Deus e nenhum deus. As alternativas são os deuses antigos da família ou os deuses da moda da nova terra. Todo mundo serve a alguma coisa. A pergunta é a quem. E Josué não espera a resposta do povo para dar a sua: ele e a sua casa já tinham decidido.

O povo responde com entusiasmo: "Longe de nós o abandonarmos o Senhor" (Josué 24:16). Então Josué faz algo surpreendente: "Não podereis servir ao Senhor, porquanto é Deus santo, Deus zeloso" (Josué 24:19). Ele não está desanimando o povo. Está impedindo uma promessa leviana. Servir a Deus não é um entusiasmo de momento.

Deus zeloso
"Zeloso" traduz o hebraico qanná, a mesma palavra usada nos Dez Mandamentos (Êxodo 20:5). Não é o ciúme mesquinho de quem é inseguro, mas o zelo de quem ama e não aceita dividir com outros a lealdade da aliança, como um marido fiel não aceita dividir a esposa. Por isso Josué insiste: não dá para servir ao Senhor e, ao mesmo tempo, guardar outros deuses em casa.

O povo insiste três vezes (Josué 24:16-18, 21, 24). Josué então os faz testemunhas contra si mesmos (Josué 24:22) e pede um gesto concreto: "deitai fora os deuses estranhos que há no meio de vós" (Josué 24:23). O pedido revela que havia ídolos guardados. Séculos antes, perto de Siquém, Jacó tinha pedido o mesmo à sua família e enterrado os deuses estrangeiros "debaixo do carvalho que está junto a Siquém" (Gênesis 35:4). Naquele dia, Josué fez aliança com o povo (Josué 24:25).


Uma Pedra, Três Túmulos (Josué 24:26-33)

Josué escreve as palavras no Livro da Lei e levanta uma grande pedra "debaixo do carvalho que estava em lugar santo do Senhor" (Josué 24:26). A pedra seria testemunha, "pois ouviu todas as palavras que o Senhor nos tem dito" (Josué 24:27). É uma forma viva de dizer que aquele compromisso tinha ficado registrado diante de Deus.

Josué ergue uma grande pedra debaixo de um carvalho em Siquém como testemunha da aliança, diante do povo

O livro termina com três sepultamentos. Josué morre com cento e dez anos e é chamado, como Moisés, de "servo do Senhor" (Josué 24:29; Deuteronômio 34:5). Os ossos de José, trazidos do Egito conforme ele tinha pedido (Gênesis 50:25; Êxodo 13:19), são enterrados em Siquém, no campo que Jacó tinha comprado (Josué 24:32; Gênesis 33:19). E morre Eleazar, o sacerdote (Josué 24:33). Uma geração inteira chega ao fim.

No meio desses túmulos está uma frase que traz esperança e alerta ao mesmo tempo: "Serviu, pois, Israel ao Senhor todos os dias de Josué e todos os dias dos anciãos que ainda sobreviveram por muito tempo depois de Josué" (Josué 24:31). A fidelidade durou enquanto viveram os que tinham visto as obras de Deus. O livro de Juízes vai mostrar o que aconteceu depois, quando se levantou "outra geração após eles... que não conhecia o Senhor" (Juízes 2:10).

Josué e Jesus
O nome Josué, em hebraico Yehoshua, significa "o Senhor salva", e é a mesma origem do nome Jesus. Muitos leitores cristãos veem em Josué uma figura de Cristo: um líder que conduz o povo à herança prometida. A carta aos Hebreus, porém, faz questão de mostrar o limite dessa comparação: o repouso que Josué deu era real, mas não era o último (Hebreus 4:8-9). Essa é uma leitura do Novo Testamento sobre o livro, não algo que o próprio texto de Josué afirme.
Conclusão: a escolha de cada geração
Josué 23-24 fecha o livro olhando para trás e para frente. Para trás, a lista de tudo o que Deus fez, desde um homem idólatra além do Eufrates até um povo comendo de vinhas que não plantou. Para frente, uma escolha que nenhuma geração pode herdar pronta da anterior. Israel serviu a Deus enquanto viveram os que lembravam. A pergunta que Josué deixa vale para nós: a quem a nossa casa está servindo hoje, e o que estamos contando aos que vêm depois para que eles também escolham o Senhor?
Referências Bíblicas
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