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Série Gênesis a Apocalipse Estudo 106 de 114 publicados Ver o mapa da série →

I Samuel 13-15: A Desobediência de Saul e a Rejeição do Rei

Saul oferece um sacrifício sem esperar Samuel, faz um juramento que quase mata o próprio filho e poupa o que Deus mandou destruir. Obedecer é melhor do que sacrificar.

O Rei que Começou Bem

No estudo anterior, Saul foi ungido, escolhido em Mispa e confirmado depois da vitória em Jabes-Gileade. Samuel encerrou o seu discurso com uma condição: se o povo e o rei temessem ao Senhor e ouvissem a sua voz, "bem será" (1 Samuel 12:14). Os capítulos 13 a 15 mostram o que Saul fez com essa condição.

São três episódios, e em todos o problema é o mesmo: Saul não espera, não escuta, não obedece por inteiro. Ao lado dele aparece outro personagem, Jônatas, seu filho, que mostra como é confiar em Deus de verdade. A pergunta destes capítulos é simples e incômoda: o que Deus quer mais, as nossas ofertas ou a nossa obediência?

Jônatas e o seu escudeiro sobem de quatro um penhasco íngreme em direção à guarnição filisteia de Micmás

Um Sacrifício Fora de Hora (1 Samuel 13)

Jônatas ataca uma guarnição filisteia, e os filisteus reagem com um exército enorme, "povo em multidão como a areia que está à beira-mar" (1 Samuel 13:5). Os israelitas entram em pânico e se escondem "pelas cavernas, e pelos buracos, e pelos penhascos" (1 Samuel 13:6). Saul está em Gilgal, esperando Samuel, como o profeta tinha mandado: sete dias, até que ele viesse oferecer os sacrifícios (1 Samuel 10:8).

Saul espera os sete dias, mas Samuel não chega, e o povo começa a ir embora. Então Saul mesmo oferece o holocausto. "Mal acabara ele de oferecer o holocausto, eis que chega Samuel" (1 Samuel 13:10). A desculpa de Saul soa razoável: o povo se espalhava, os filisteus se reuniam, e ele se sentiu "forçado pelas circunstâncias" (1 Samuel 13:11-12). Mas Samuel vê outra coisa:

Procedeste nesciamente em não guardar o mandamento que o Senhor, teu Deus, te ordenou; pois teria, agora, o Senhor confirmado o teu reino sobre Israel para sempre. Já agora não subsistirá o teu reino. O Senhor buscou para si um homem que lhe agrada

Para o leitor de hoje, a reação pode parecer exagerada. Mas o ponto não é o atraso de algumas horas. Saul tratou o sacrifício como um ritual para garantir a ajuda de Deus, quando o que Deus tinha pedido era confiança e espera. O rei de Israel não podia agir como os reis das nações, que usavam a religião a serviço dos seus planos. O capítulo termina mostrando a fraqueza do exército: os filisteus controlavam os ferreiros, e só Saul e Jônatas tinham espada e lança (1 Samuel 13:19-22).


Jônatas e o Escudeiro (1 Samuel 14:1-23)

Enquanto Saul está parado "debaixo da romeira em Migrom" com seiscentos homens (1 Samuel 14:2), Jônatas decide agir. Chama o seu escudeiro e propõe atravessar até a guarnição filisteia, entre dois penhascos. O motivo é uma frase que resume a fé dele:

Vem, passemos à guarnição destes incircuncisos; porventura, o Senhor nos ajudará nisto, porque para o Senhor nenhum impedimento há de livrar com muitos ou com poucos.

Jônatas não presume nada. Diz "porventura" e pede um sinal: se os filisteus disserem "subi a nós", ele saberá que Deus os entregou (1 Samuel 14:9-10). É o que acontece. Os filisteus zombam, "já os hebreus estão saindo dos buracos" (1 Samuel 14:11), e os dois sobem de gatinhas pelo penhasco. Matam cerca de vinte homens, e Deus faz o resto: "até a terra se estremeceu; e tudo passou a ser um terror de Deus" (1 Samuel 14:15). O exército filisteu entra em confusão, e "assim, livrou o Senhor a Israel naquele dia" (1 Samuel 14:23).


Um Voto que Quase Mata Jônatas (1 Samuel 14:24-52)

No meio da vitória, Saul faz um juramento: "Maldito o homem que comer pão antes de anoitecer, para que me vingue de meus inimigos" (1 Samuel 14:24). Repare no "me vingue". A batalha que era do Senhor virou assunto pessoal do rei. O povo luta o dia inteiro em jejum, exausto. Jônatas, que não ouviu o juramento, prova um pouco de mel com a ponta da vara, "e tornaram a brilhar os seus olhos" (1 Samuel 14:27). Ao saber do voto, ele diz com franqueza: "Meu pai turbou a terra" (1 Samuel 14:29).

Num bosque, o exausto Jônatas molha a ponta da vara num favo de mel, enquanto soldados famintos o observam

O jejum forçado tem outra consequência: à noite, o povo faminto mata os animais do despojo e come a carne com sangue, o que a Lei proibia (1 Samuel 14:32; Levítico 17:10-11). Saul corrige o problema e constrói um altar. Depois quer perseguir os filisteus durante a noite, mas Deus não responde à sua consulta (1 Samuel 14:37). Saul procura um culpado, lança sortes, e a sorte cai sobre Jônatas. Saul está pronto a matar o próprio filho: "é certo que morrerás, Jônatas" (1 Samuel 14:44).

Quem salva Jônatas é o povo: "Morrerá Jônatas, que efetuou tamanha salvação em Israel? Tal não suceda… Pois foi com Deus que fez isso, hoje" (1 Samuel 14:45). O contraste é claro. Jônatas agiu com Deus; Saul fez um voto que atrapalhou a vitória e quase custou a vida do herói do dia. Como Jefté antes dele, Saul mostra que um voto precipitado pode ferir quem está mais perto.

O capítulo termina com um resumo do reinado: Saul lutou contra Moabe, Amom, Edom, Zobá, os filisteus e os amalequitas, e "para onde quer que se voltava, era vitorioso" (1 Samuel 14:47-48). O problema de Saul nunca foi falta de coragem militar.


Amaleque e a Desobediência Final (1 Samuel 15)

Samuel traz uma missão clara: castigar Amaleque "pelo que fez a Israel" no caminho do Egito (1 Samuel 15:2), quando atacou os mais fracos que iam na retaguarda (Deuteronômio 25:17-18). A ordem é destruir tudo, sem tomar despojo. Saul vence a batalha, mas poupa o rei Agague "e o melhor das ovelhas e dos bois" (1 Samuel 15:9). Destrói só o que não valia nada.

A destruição total
A ordem de "destruir totalmente" (em hebraico, herem) significava consagrar tudo a Deus por destruição, sem que ninguém lucrasse com a guerra. Para o leitor de hoje, é um dos textos mais difíceis da Bíblia, sobretudo por incluir mulheres e crianças (1 Samuel 15:3). Os intérpretes lidam com isso de formas diferentes: alguns destacam que era um juízo específico contra um povo que atacava Israel havia gerações (Êxodo 17:14-16); outros notam que a linguagem de guerra do antigo Oriente Próximo costumava ser hiperbólica, já que os amalequitas reaparecem pouco depois (1 Samuel 30:1); e muitos reconhecem que o texto continua sendo pesado e não deve ser usado para justificar violência hoje. O que a passagem enfatiza é outra coisa: Saul não poupou por compaixão, mas para ficar com o melhor do despojo.

Deus diz a Samuel: "Arrependo-me de haver constituído Saul rei" (1 Samuel 15:11). Samuel passa a noite clamando ao Senhor. De manhã, descobre que Saul ergueu um monumento para si mesmo no Carmelo (1 Samuel 15:12). Quando os dois se encontram, Saul se adianta: "executei as palavras do Senhor". Samuel responde com ironia: "Que balido, pois, de ovelhas é este nos meus ouvidos?" (1 Samuel 15:13-14).

Saul põe a culpa no povo e dá uma desculpa religiosa: os animais foram poupados "para os sacrificar ao Senhor" (1 Samuel 15:15, 21). A resposta de Samuel é uma das frases mais citadas do Antigo Testamento:

Tem, porventura, o Senhor tanto prazer em holocaustos e sacrifícios quanto em que se obedeça à sua palavra? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar, e o atender, melhor do que a gordura de carneiros.

Saul finalmente diz "Pequei", mas a explicação revela o coração: "porque temi o povo e dei ouvidos à sua voz" (1 Samuel 15:24). E, logo em seguida, o que mais o preocupa é a aparência: "honra-me, porém, agora, diante dos anciãos do meu povo" (1 Samuel 15:30). Quando Samuel se vira para ir embora, Saul agarra a borda do manto, que se rasga. Samuel transforma o gesto em profecia: "O Senhor rasgou, hoje, de ti o reino de Israel e o deu ao teu próximo, que é melhor do que tu" (1 Samuel 15:28).

O capítulo termina com uma tristeza dupla. "Nunca mais viu Samuel a Saul até ao dia da sua morte; porém tinha pena de Saul. O Senhor se arrependeu de haver constituído Saul rei sobre Israel" (1 Samuel 15:35).

Deus se arrepende?
O mesmo capítulo diz que o Senhor se arrependeu de ter feito Saul rei (1 Samuel 15:11, 35) e que "a Glória de Israel não mente, nem se arrepende, porquanto não é homem" (1 Samuel 15:29). Os intérpretes costumam explicar que são dois sentidos diferentes. Deus não muda de ideia por capricho nem volta atrás na sua palavra, como os homens. Mas ele reage de verdade às escolhas humanas, e o texto usa a linguagem do arrependimento para mostrar a tristeza de Deus diante da desobediência de Saul. Os profetas repetiriam a lição de Samuel: "misericórdia quero, e não sacrifício" (Oseias 6:6), frase que Jesus citaria mais tarde (Mateus 9:13).
Conclusão: obediência inteira
Saul nunca abandonou a religião. Ofereceu sacrifícios, construiu altar, consultou o sacerdote, falou em honrar a Deus. O problema era que a obediência dele era sempre pela metade, ajustada ao medo do povo, à pressa e ao próprio interesse. Jônatas, ao contrário, arriscou a vida confiando que Deus podia salvar "com muitos ou com poucos". A história nos pergunta se a nossa fé é parecida com a de Saul, cheia de rituais e desculpas, ou com a de Jônatas, simples e confiante. Deus não procura gente perfeita, mas um coração que o ouve e obedece.
Referências Bíblicas
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