Pular para o conteúdo
Versão ARA
×

Escolha a tradução:

Série Gênesis a Apocalipse Estudo 114 de 114 publicados Ver o mapa da série →

II Samuel 8-10: As Vitórias de Davi e a Bondade com Mefibosete

No auge do poder, Davi vence os povos vizinhos e procura alguém da casa de Saul para tratar com bondade. Um filho manco de Jônatas passa a comer à mesa do rei.

O Rei Poderoso que Procura a Quem Fazer o Bem

No estudo anterior, Deus prometeu a Davi uma casa e um trono "para sempre" e lhe deu "descanso de todos os teus inimigos" (2 Samuel 7:11, 16). Os capítulos 8 a 10 mostram essa promessa começando a se cumprir. Davi vence os povos vizinhos, organiza o governo e se torna o rei mais forte que Israel já teve.

Mas, no meio dos relatórios de guerra, o texto para e conta uma história pequena e pessoal: o rei procura alguém da casa de Saul, a família que o perseguiu, para lhe fazer o bem. A palavra que liga esses capítulos é "bondade". O que um homem poderoso faz com o seu poder?

Mefibosete, filho de Jônatas, se prostra diante do rei Davi, que se levanta para acolhê-lo

"O Senhor Dava Vitórias a Davi" (2 Samuel 8:1-14)

O capítulo 8 é um resumo das campanhas de Davi, provavelmente reunindo guerras de vários anos. Os filisteus, inimigos desde os tempos dos juízes, são enfim submetidos (2 Samuel 8:1). Moabe é derrotado e passa a pagar tributo, depois de uma execução dura de parte dos prisioneiros, que o texto registra sem comentar (2 Samuel 8:2). Ao norte, Davi vence Hadadezer, rei de Zobá, e os sírios de Damasco que vieram ajudá-lo, e põe guarnições na Síria (2 Samuel 8:3-6). Ao sul, faz o mesmo em Edom (2 Samuel 8:14).

Duas frases se repetem e explicam tudo: "o Senhor dava vitórias a Davi, por onde quer que ia" (2 Samuel 8:6, 14). As conquistas não são apresentadas como mérito do rei, mas como cumprimento do que Deus prometeu. A terra de Israel e sua influência chegam perto do que tinha sido prometido a Abraão, "desde o rio do Egito até ao grande rio Eufrates" (Gênesis 15:18).

Cavalos jarretados e ouro consagrado
Davi captura os carros de Hadadezer, mas jarreta os cavalos, isto é, corta os tendões das patas para que não sirvam mais para a guerra, deixando só cem (2 Samuel 8:4). A Lei avisava que o rei de Israel não deveria multiplicar cavalos para si (Deuteronômio 17:16). Os escudos de ouro, o bronze e os presentes do rei de Hamate também não ficam no tesouro pessoal de Davi: ele os consagra ao Senhor (2 Samuel 8:7-11). Segundo Crônicas, foi desse bronze que Salomão fez o mar de bronze e as colunas e os utensílios de bronze do templo (1 Crônicas 18:8).

Justiça e um Governo Organizado (2 Samuel 8:15-18)

Depois das guerras, uma frase que resume o ideal de um rei em Israel:

Reinou, pois, Davi sobre todo o Israel; julgava e fazia justiça a todo o seu povo.

O texto também nomeia os principais oficiais: Joabe no comando do exército, Josafá como cronista, Zadoque e Aimeleque como sacerdotes, Seraías como escrivão e Benaia à frente da guarda real (2 Samuel 8:16-18). O bando de fugitivos da caverna de Adulão virou um reino com administração. É o tipo de governo que os profetas depois cobrariam dos reis: justiça para todos, e não só para os amigos.


Um Lugar à Mesa do Rei (2 Samuel 9)

No auge do poder, Davi faz uma pergunta inesperada: "Resta ainda, porventura, alguém da casa de Saul, para que use eu de bondade para com ele, por amor de Jônatas?" (2 Samuel 9:1). No antigo Oriente, era comum um novo rei eliminar os descendentes da dinastia anterior. Davi faz o contrário: procura um deles para abençoar.

O motivo é uma promessa antiga. Anos antes, Jônatas tinha pedido a Davi que nunca cortasse "da minha casa a tua bondade" (1 Samuel 20:15). Os dois tinham jurado que o Senhor estaria "para sempre entre mim e ti e entre a minha descendência e a tua" (1 Samuel 20:42). Davi lembra.

Bondade, a palavra da aliança
A palavra traduzida por "bondade" nestes capítulos é o hebraico hesed. Ela não fala de um sentimento passageiro, mas de lealdade amorosa que cumpre uma aliança. Davi não pergunta apenas por alguém a quem ajudar; ele quer usar "da bondade de Deus" (2 Samuel 9:3), isto é, tratar a família de Jônatas como Deus trata o seu povo.

Ziba, antigo servo de Saul, conta que ainda vive um filho de Jônatas, "aleijado de ambos os pés", na casa de Maquir, em Lo-Debar (2 Samuel 9:3-4). É Mefibosete, que ficou manco aos cinco anos, quando a ama fugiu com ele depois da morte de Saul (2 Samuel 4:4). Ele chega ao palácio e se prostra, provavelmente com medo do que o novo rei faria com um neto de Saul. Davi o chama pelo nome e o tranquiliza:

Não temas, porque usarei de bondade para contigo, por amor de Jônatas, teu pai, e te restituirei todas as terras de Saul, teu pai, e tu comerás pão sempre à minha mesa.

A resposta de Mefibosete mostra como ele se via: "Quem é teu servo, para teres olhado para um cão morto tal como eu?" (2 Samuel 9:8). Davi devolve as terras da família, põe Ziba e seus quinze filhos para cultivá-las e garante a Mefibosete um lugar fixo no palácio. O texto diz que ele comia à mesa de Davi "como um dos filhos do rei" (2 Samuel 9:11). E termina lembrando, como quem não quer esquecer: "Ele era coxo de ambos os pés" (2 Samuel 9:13). A deficiência não mudou; o lugar dele à mesa, sim.

Mefibosete e a graça
Muitos pregadores e leitores cristãos veem nesta história uma imagem da graça de Deus. Alguém da família inimiga, que não pode se aproximar sozinho e se considera "um cão morto", é procurado pelo rei por causa de uma aliança feita com outro e recebe um lugar entre os filhos. Paulo descreve os que estavam "longe", "estranhos às alianças da promessa", e que foram "aproximados pelo sangue de Cristo" (Efésios 2:12-13). A comparação é uma aplicação; o texto de Samuel conta a lealdade de Davi a Jônatas. A história de Mefibosete também não termina aqui: ela volta, com intrigas de Ziba, na revolta de Absalão (2 Samuel 16:1-4; 19:24-30).
Diante da cidade dos amonitas, Joabe divide o exército e combina com Abisai que um socorrerá o outro

Uma Bondade Recusada (2 Samuel 10)

O capítulo 10 começa com a mesma palavra. Morre o rei dos amonitas, e Davi diz: "Usarei de bondade para com Hanum, filho de Naás, como seu pai usou de bondade para comigo" (2 Samuel 10:2). O texto não conta o que Naás fez por Davi, mas Davi manda uma delegação para consolar o novo rei.

Os príncipes amonitas desconfiam e convencem Hanum de que os enviados são espiões (2 Samuel 10:3). Hanum os humilha: raspa metade da barba de cada um e corta as roupas até as nádegas (2 Samuel 10:4). Davi cuida da vergonha dos seus homens e manda que esperem em Jericó "até que vos torne a crescer a barba" (2 Samuel 10:5).

Uma ofensa diplomática
Para os homens do antigo Oriente Próximo, a barba era sinal de dignidade, e expor alguém seminu era uma forma de rebaixá-lo a prisioneiro. Ofender os enviados de um rei era ofender o próprio rei. Os amonitas sabiam disso: logo depois contratam milhares de soldados sírios, esperando a guerra (2 Samuel 10:6).

Joabe se vê cercado: os amonitas na porta da cidade e os sírios no campo. Ele divide o exército, fica com a melhor tropa contra os sírios e entrega o resto a Abisai, seu irmão, contra os amonitas. Os dois combinam socorrer um ao outro (2 Samuel 10:9-11). Então Joabe diz uma das frases de fé mais bonitas da boca de um soldado:

Sê forte, pois; pelejemos varonilmente pelo nosso povo e pelas cidades de nosso Deus; e faça o Senhor o que bem lhe parecer.

Os sírios fogem, e os amonitas também (2 Samuel 10:13-14). Os sírios ainda tentam se reorganizar com reforços de além do Eufrates, mas Davi os enfrenta em Helã e os derrota (2 Samuel 10:15-18). Os reis que serviam a Hadadezer fazem paz com Israel (2 Samuel 10:19). A guerra contra os amonitas, porém, não acabou. É durante o cerco à capital deles, Rabá, que acontece a história de Davi e Bate-Seba, no capítulo seguinte (2 Samuel 12:26).

Conclusão: o poder a serviço da bondade
Estes capítulos mostram Davi no ponto mais alto do reinado. Deus lhe dá vitórias por onde vai, e ele governa com justiça. Mas o retrato mais marcante não é o do guerreiro, e sim o do rei que procura um homem esquecido em Lo-Debar para cumprir uma promessa feita a um amigo morto. Davi também oferece bondade a Hanum, que a recusa e transforma consolo em ofensa. A bondade nem sempre é bem recebida, mas continua sendo o caminho de quem conhece a bondade de Deus. "Ele te declarou, ó homem, o que é bom": praticar a justiça, amar a misericórdia e andar humildemente com Deus (Miqueias 6:8). Quem, à nossa volta, está esperando um lugar à mesa?
Referências Bíblicas
Encontrou algum erro neste conteúdo?
O que está errado?

Não pedimos nome nem e-mail. Veja a política editorial.

Busca Rápida de Livros da Bíblia

Buscar livro da Bíblia