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Série Gênesis a Apocalipse Estudo 107 de 109 publicados Ver o mapa da série →

I Samuel 16-17: Davi Ungido e a Vitória sobre Golias

Deus escolhe o filho mais novo de Jessé, que estava com as ovelhas, porque vê o coração. No vale de Elá, o pastor enfrenta o gigante em nome do Senhor dos Exércitos.

O Rei que Deus Escolheu

No estudo anterior, Saul foi rejeitado como rei. Samuel anunciou que o Senhor tinha buscado "um homem que lhe agrada" (1 Samuel 13:14) e que o reino seria dado a outro, "melhor do que tu" (1 Samuel 15:28). Samuel voltou para casa triste, com pena de Saul. Quem seria esse outro?

Os capítulos 16 e 17 apresentam Davi, o personagem que vai dominar o resto dos livros de Samuel e boa parte da Bíblia. Ele aparece primeiro como o caçula esquecido no campo, depois como músico na corte de Saul, e por fim como o jovem que enfrenta Golias. Nas três cenas, a mesma pergunta: o que Deus vê numa pessoa que os outros não veem?

Em Belém, Samuel derrama o azeite do chifre sobre a cabeça do jovem Davi, no meio de seus irmãos

O Senhor Vê o Coração (1 Samuel 16:1-13)

Deus tira Samuel do luto: "Até quando terás pena de Saul…? Enche um chifre de azeite e vem; enviar-te-ei a Jessé, o belemita; porque, dentre os seus filhos, me provi de um rei" (1 Samuel 16:1). Samuel tem medo de que Saul o mate, e Deus lhe dá um motivo público para a viagem: oferecer um sacrifício em Belém (1 Samuel 16:2).

Jessé apresenta os filhos, começando pelo mais velho. Eliabe impressiona, e Samuel pensa logo: "Certamente, está perante o Senhor o seu ungido" (1 Samuel 16:6). Foi exatamente o critério que tinha feito Saul parecer o rei ideal: aparência e altura. A resposta de Deus corrige não só Samuel, mas toda a lógica do povo que pediu um rei como os outros:

Não atentes para a sua aparência, nem para a sua altura, porque o rejeitei; porque o Senhor não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, porém o Senhor, o coração.

Passam sete filhos, e nenhum é o escolhido. Samuel pergunta se não há mais nenhum. "Ainda falta o mais moço, que está apascentando as ovelhas" (1 Samuel 16:11). Ninguém tinha pensado em chamá-lo. Quando ele chega, o texto o descreve como "ruivo, de belos olhos e boa aparência", e Deus diz: "Levanta-te e unge-o, pois este é ele" (1 Samuel 16:12). Samuel o unge no meio dos irmãos, "e, daquele dia em diante, o Espírito do Senhor se apossou de Davi" (1 Samuel 16:13).

Belém e a família de Davi
Belém era uma pequena aldeia de Judá, a poucos quilômetros ao sul de Jerusalém, que na época ainda era uma cidade dos jebuseus. Era a cidade de Boaz e Rute, e o livro de Rute terminou justamente com o nome de Davi: "Obede. Este é o pai de Jessé, pai de Davi" (Rute 4:17). Pastorear ovelhas era trabalho comum para o filho mais novo. Mais tarde, o salmista veria nisso uma preparação: Deus "tirou-o do cuidado das ovelhas e suas crias, para ser o pastor de Jacó, seu povo" (Salmos 78:71).

Um Músico na Corte de Saul (1 Samuel 16:14-23)

No mesmo momento em que o Espírito vem sobre Davi, o texto diz o contrário de Saul: "Tendo-se retirado de Saul o Espírito do Senhor, da parte deste um espírito maligno o atormentava" (1 Samuel 16:14). Os servos sugerem procurar alguém que toque harpa para acalmar o rei. Um deles conhece o homem certo: um filho de Jessé "que sabe tocar e é forte e valente, homem de guerra, sisudo em palavras e de boa aparência; e o Senhor é com ele" (1 Samuel 16:18).

A ironia é grande. Saul manda buscar, sem saber, o homem que Deus já tinha ungido para ocupar o seu lugar. Davi chega com um jumento carregado de presentes do pai, e Saul o ama muito e o faz seu escudeiro (1 Samuel 16:20-21). Quando o espírito maligno vem sobre Saul, "Davi tomava a harpa e a dedilhava; então, Saul sentia alívio" (1 Samuel 16:23). O futuro rei aprende a vida da corte servindo ao rei que vai substituir.

O jovem Davi toca uma lira para o rei Saul, que está sentado, abatido e atormentado, na penumbra
Um espírito maligno da parte de Deus?
O texto diz que o espírito que atormentava Saul vinha "da parte do Senhor" (1 Samuel 16:14). Isso incomoda muitos leitores. Os intérpretes costumam lembrar que o Antigo Testamento descreve tudo o que acontece como estando sob o governo de Deus, inclusive o juízo. A retirada do Espírito e a perturbação de Saul são apresentadas como consequência da sua rejeição da palavra de Deus. Alguns leitores modernos veem nos sintomas de Saul, como o medo, a raiva e a melancolia, algo parecido com uma depressão profunda; o texto, porém, descreve a situação em termos espirituais e não médicos.

O Desafio de Golias (1 Samuel 17:1-30)

Os filisteus e Israel se enfrentam no vale de Elá, cada exército num monte, com o vale no meio (1 Samuel 17:1-3). Do lado filisteu sai Golias, de Gate, "da altura de seis côvados e um palmo" (1 Samuel 17:4), com capacete de bronze, couraça de escamas, caneleiras e uma lança cuja haste era "como o eixo do tecelão" (1 Samuel 17:5-7). Ele propõe resolver a guerra num duelo: "Dai-me um homem, para que ambos pelejemos" (1 Samuel 17:10). Durante quarenta dias, de manhã e à tarde, ele repete o desafio, e ninguém responde. "Saul e todo o Israel… espantaram-se e temeram muito" (1 Samuel 17:11).

O homem que deveria aceitar o desafio era Saul, o mais alto de Israel e o rei escolhido para "fazer as nossas guerras" (1 Samuel 8:20). Mas ele está paralisado como os outros. Enquanto isso, Jessé manda Davi levar comida aos irmãos no acampamento (1 Samuel 17:17-18). Davi ouve Golias e reage de um jeito diferente de todos: "Quem é, pois, esse incircunciso filisteu, para afrontar os exércitos do Deus vivo?" (1 Samuel 17:26). Para os soldados, Golias era um problema militar. Para Davi, era uma afronta a Deus.

O irmão mais velho, Eliabe, o mesmo que Deus não escolheu, se irrita e acusa Davi de presunção (1 Samuel 17:28). Davi não discute e continua perguntando.


Em Nome do Senhor dos Exércitos (1 Samuel 17:31-58)

Levado a Saul, Davi se oferece para lutar. Saul diz que ele é só um rapaz, e Golias, um guerreiro desde a juventude. Davi conta que, como pastor, enfrentou leões e ursos para salvar os cordeiros, e conclui: "O Senhor me livrou das garras do leão e das do urso; ele me livrará das mãos deste filisteu" (1 Samuel 17:37).

Saul veste Davi com a sua própria armadura. Davi experimenta andar e desiste: "Não posso andar com isto, pois nunca o usei" (1 Samuel 17:39). Vai com o que conhece: o cajado, a funda e "cinco pedras lisas do ribeiro" (1 Samuel 17:40). Golias o despreza e o amaldiçoa pelos seus deuses (1 Samuel 17:42-44). E Davi responde com as palavras que explicam toda a cena:

Tu vens contra mim com espada, e com lança, e com escudo; eu, porém, vou contra ti em nome do Senhor dos Exércitos, o Deus dos exércitos de Israel, a quem tens afrontado.

O objetivo, diz Davi, é que "toda a terra saiba que há Deus em Israel" e que todos aprendam "que o Senhor salva, não com espada, nem com lança; porque do Senhor é a guerra" (1 Samuel 17:46-47). Davi corre na direção do gigante, atira uma pedra com a funda e o acerta na testa. Golias cai com o rosto em terra (1 Samuel 17:48-49). O texto faz questão de observar: "porém não havia espada na mão de Davi" (1 Samuel 17:50). Os filisteus fogem, e Israel os persegue até Gate e Ecrom (1 Samuel 17:51-52).

O capítulo termina com Saul perguntando de quem aquele jovem é filho, e Davi respondendo: "Filho de teu servo Jessé, belemita" (1 Samuel 17:58). A pergunta parece estranha, já que Davi tocava para Saul. Muitos estudiosos entendem que o narrador juntou relatos diferentes sobre a chegada de Davi à corte; outros sugerem que Saul queria saber da família de quem se casaria com a sua filha, como prometido ao vencedor (1 Samuel 17:25). De um jeito ou de outro, o foco está na família de Belém, de onde viria a linhagem real.

A funda
A funda não era um brinquedo. Era uma arma de guerra usada no antigo Oriente Próximo: duas tiras de couro ou corda com um bolso no meio, onde se colocava a pedra. Girada e solta no momento certo, lançava pedras com grande velocidade e precisão. Juízes já tinha falado dos setecentos benjamitas canhotos que "atiravam com a funda uma pedra num cabelo e não erravam" (Juízes 20:16). Davi, pastor, usava a funda para proteger o rebanho. O texto não apresenta a vitória como mágica, mas como a confiança de Davi em Deus usando aquilo que ele sabia fazer.
Conclusão: os gigantes e o Deus vivo
A história de Davi e Golias costuma ser contada como a vitória do fraco contra o forte, e é. Mas o ponto central do texto é outro: Deus escolhe quem os homens desprezam e age para que todos saibam "que o Senhor salva, não com espada, nem com lança". Davi não era o mais alto nem o mais velho, e não vestiu a armadura do rei. Ele foi com o que tinha, confiando no Deus que já o tinha livrado antes. Os nossos gigantes podem ser medos, problemas ou ameaças que paralisam todo mundo ao redor. A história nos convida a olhar para eles como Davi olhou: lembrando que a batalha pertence ao Senhor e que ele vê o coração.
Referências Bíblicas
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