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Série Gênesis a Apocalipse Estudo 102 de 109 publicados Ver o mapa da série →

Rute 3-4: Boaz, o Resgatador

Uma noite na eira, uma reunião na porta da cidade e um casamento que devolve a Noemi o que ela tinha perdido. No fim, um menino que será avô do rei Davi.

Do Vazio à Plenitude

No estudo anterior, Noemi chegou a Belém dizendo que o Senhor a tinha feito "voltar pobre" (Rute 1:21). Rute passou a colheita inteira no campo de Boaz, e Noemi descobriu que ele era "um dentre os nossos resgatadores" (Rute 2:20). A colheita acabou. E agora?

Os capítulos 3 e 4 respondem com duas cenas. Uma acontece de noite, numa eira, longe dos olhos de todos. A outra acontece de dia, na porta da cidade, diante de testemunhas. Nas duas, a pergunta é a mesma: quem vai assumir a responsabilidade de resgatar esta família? O fim da história vai muito além do que Noemi e Rute poderiam imaginar.

Ao amanhecer, na eira, Boaz enche de cevada o manto que Rute segura

Um Plano Arriscado (Rute 3:1-5)

Desta vez é Noemi quem toma a iniciativa. A mulher amargurada do capítulo 1 agora pensa no futuro da nora: "Minha filha, não hei de eu buscar-te um lar, para que sejas feliz?" (Rute 3:1). Ela sabe que Boaz vai passar a noite na eira, cuidando da cevada debulhada, e propõe um plano.

Rute deve se banhar, se perfumar, vestir a melhor roupa e esperar Boaz terminar de comer. Quando ele se deitar, deve descobrir os pés dele e se deitar ali (Rute 3:3-4). O plano é ousado e arriscado. Uma mulher sozinha à noite na eira podia ser mal interpretada, e a reputação dela, e a de Boaz, estavam em jogo. Rute responde com a mesma confiança que mostrou no caminho de Moabe: "Tudo quanto me disseres farei" (Rute 3:5).

O resgatador
O go'el, ou resgatador, era o parente próximo que tinha o dever de proteger a família em crise. Se um israelita empobrecido vendesse a terra, o resgatador a comprava de volta, "virá o seu resgatador, seu parente, e resgatará o que seu irmão vendeu" (Levítico 25:25). Se ele próprio se vendesse como servo, o parente podia resgatá-lo (Levítico 25:47-49). A Lei também previa que, se um homem morresse sem filhos, o irmão se casasse com a viúva para que o nome do morto "não se apague em Israel" (Deuteronômio 25:5-6). O livro de Rute junta essas ideias: resgatar a terra de Elimeleque e dar continuidade ao nome da família.

Uma Noite na Eira (Rute 3:6-18)

À meia-noite, Boaz acorda assustado e encontra uma mulher deitada a seus pés. "Quem és tu?", pergunta. E Rute faz mais do que o plano de Noemi previa (Rute 3:9):

Sou Rute, tua serva; estende a tua capa sobre a tua serva, porque tu és resgatador.

Noemi tinha dito que Boaz diria a Rute o que fazer. Mas é Rute quem diz a Boaz o que fazer. O pedido para estender a capa era uma forma de pedir casamento, como mostra a imagem usada em Ezequiel 16:8 para a aliança de Deus com o seu povo. E há um detalhe bonito: a palavra hebraica traduzida por "capa" é a mesma traduzida por "asas" em Rute 2:12. Boaz tinha abençoado Rute dizendo que ela buscara refúgio sob as asas do Senhor. Agora ela lhe pede que ele mesmo seja a resposta dessa bênção.

Boaz responde com bênção, não com suspeita: "Bendita sejas tu do Senhor, minha filha; melhor fizeste a tua última benevolência que a primeira" (Rute 3:10). A primeira foi a lealdade a Noemi. A segunda é procurar um resgatador para a família, em vez de buscar um marido jovem só para si. E ele acrescenta: "toda a cidade do meu povo sabe que és mulher virtuosa" (Rute 3:11), a mesma expressão do famoso elogio de Provérbios: "Mulher virtuosa, quem a achará?" (Provérbios 31:10).

Mas há um obstáculo. Existe outro resgatador, parente mais próximo (Rute 3:12). Boaz não passa por cima da Lei. Promete resolver tudo no dia seguinte, "tão certo como vive o Senhor" (Rute 3:13), protege a reputação de Rute mandando-a sair antes do amanhecer e enche o manto dela com seis medidas de cevada: "Não voltes para a tua sogra sem nada" (Rute 3:15-17). Noemi, que tinha voltado vazia, recebe um sinal de que o vazio está acabando. E ela conhece Boaz: "aquele homem não descansará, enquanto não se resolver este caso ainda hoje" (Rute 3:18).


Na Porta da Cidade (Rute 4:1-12)

Na manhã seguinte, Boaz se senta na porta de Belém, onde se faziam os negócios e os julgamentos. O outro resgatador passa por ali, e Boaz o chama sem dizer o nome; o texto o trata apenas como "fulano" (Rute 4:1). Dez anciãos se sentam como testemunhas.

Boaz conduz a conversa com habilidade. Primeiro fala só da terra de Elimeleque, que Noemi está vendendo. O parente se anima: "Eu a resgatarei" (Rute 4:4). Então Boaz acrescenta a outra parte: quem comprar a terra também deve tomar Rute, a moabita, "para suscitar o nome do esposo falecido, sobre a herança dele" (Rute 4:5). O parente recua. Um filho com Rute herdaria a terra no nome de Malom, e ele teria gasto o seu dinheiro numa herança que não ficaria para os seus: "para que não prejudique a minha" (Rute 4:6).

O negócio é confirmado com um costume antigo: o parente tira a sandália e a entrega a Boaz (Rute 4:7-8). Boaz declara diante de todos que compra a herança de Elimeleque e toma Rute por mulher, "para que este nome não seja exterminado dentre seus irmãos" (Rute 4:10). O povo responde com bênçãos: que Rute seja como Raquel e Lia, que edificaram a casa de Israel, e que a casa de Boaz seja "como a casa de Perez, que Tamar teve de Judá" (Rute 4:11-12).

A sandália e a porta
A porta da cidade era o centro da vida pública nas cidades do antigo Israel: ali os anciãos se sentavam, julgavam causas e testemunhavam negócios. O gesto de entregar a sandália simbolizava a transferência de um direito, como o de pisar e tomar posse de uma terra. O próprio livro explica que era um costume "outrora" (Rute 4:7), sinal de que foi escrito algum tempo depois. Deuteronômio 25:9 traz um ritual parecido, mas com outro sentido: ali a viúva tira a sandália do cunhado que se recusa a cumprir o dever, como uma vergonha pública.

Um Filho para Noemi (Rute 4:13-22)

Boaz e Rute se casam, "e o Senhor lhe concedeu que concebesse, e teve um filho" (Rute 4:13). Em Moabe, Rute tinha passado quase dez anos casada sem ter filhos (Rute 1:4-5). Agora o texto diz claramente quem deu a criança: o Senhor.

A cena final, porém, não é centrada em Rute nem em Boaz, mas em Noemi. As mulheres de Belém, as mesmas que tinham perguntado "Não é esta Noemi?", agora a cercam:

Seja o Senhor bendito, que não deixou, hoje, de te dar um neto que será teu resgatador, e seja afamado em Israel o nome deste. Ele será restaurador da tua vida e consolador da tua velhice, pois tua nora, que te ama, o deu à luz, e ela te é melhor do que sete filhos.

Noemi toma o menino no colo e cuida dele (Rute 4:16). A mulher que se chamou Mara, amarga, e disse ter voltado vazia, agora tem os braços cheios. E as vizinhas dizem: "A Noemi nasceu um filho" (Rute 4:17). O nome dele é Obede.

Noemi segura no colo o neto Obede, cercada pelas mulheres de Belém, enquanto Rute observa sorrindo

Só então vem a revelação que muda a dimensão de tudo: "Este é o pai de Jessé, pai de Davi" (Rute 4:17). A história de uma família pobre de Belém era, na verdade, parte da história do maior rei de Israel. A genealogia final, de Perez até Davi, mostra o fio que liga tudo (Rute 4:18-22).

Boaz e o Resgatador maior
O evangelho de Mateus inclui Rute na genealogia de Jesus: "Salmom gerou de Raabe a Boaz; este, de Rute, gerou a Obede" (Mateus 1:5). Junto com Tamar e Raabe, ela é uma das mulheres estrangeiras ou de história incomum na linhagem do Messias. Por isso muitos intérpretes cristãos veem em Boaz uma figura de Cristo: um parente que paga o preço do resgate, acolhe uma estrangeira e lhe dá um lugar no povo de Deus. Intérpretes judeus, por sua vez, leem o livro na festa das Semanas, ligada à colheita, e destacam Rute como modelo de quem escolhe o Deus de Israel por amor. As duas leituras concordam em algo: a lealdade de pessoas comuns foi o caminho por onde Deus preparou a vinda de um rei.
Conclusão: Deus escreve histórias maiores
O livro de Rute começou com fome, mortes e uma mulher que se dizia vazia. Termina com pão, casamento, um bebê no colo de Noemi e o nome de Davi. No meio, não houve milagres espetaculares, mas pessoas que agiram com benevolência: Rute com a sogra, Boaz com Rute, Noemi com a nora. Enquanto o Israel dos juízes se perdia em violência, Deus preparava em silêncio, numa aldeia pequena, a família de um rei. A história nos convida a confiar que Deus pode estar escrevendo algo muito maior do que vemos nos nossos dias difíceis, e a sermos, nós mesmos, instrumentos da bondade dele para quem está vazio.
Referências Bíblicas
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