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Juízes 19-21: O Crime de Gibeá e a Guerra contra Benjamim
O livro de Juízes termina com o seu capítulo mais escuro: um crime numa cidade israelita, uma guerra entre irmãos e uma tribo quase extinta. Tudo porque não havia rei.
O Fundo do Poço
O livro de Juízes começou com Israel perguntando a Deus quem subiria primeiro contra os cananeus (Juízes 1:1). Termina com Israel fazendo a mesma pergunta, só que agora contra uma tribo irmã (Juízes 20:18). Entre um ponto e outro, o povo foi descendo, ciclo após ciclo. Os capítulos 19 a 21 são o fundo desse poço.
É uma das passagens mais duras de toda a Bíblia, e convém dizer isso logo. Ela conta um crime sexual brutal, uma guerra civil e uma solução que gera ainda mais violência contra mulheres. O texto não esconde nada nem aprova nada. Ele mostra o que acontece quando o povo de Deus fica igual aos povos que deveria ter sido diferente. E fecha com a frase que já ouvimos no estudo anterior: "Naqueles dias, não havia rei em Israel; cada um fazia o que achava mais reto" (Juízes 21:25).

Uma Noite em Gibeá (Juízes 19)
Um levita da região montanhosa de Efraim tinha uma concubina de Belém de Judá, uma esposa de posição inferior à de uma esposa principal. Ela o deixa e volta para a casa do pai. Quatro meses depois, ele vai buscá-la "para falar-lhe ao coração" (Juízes 19:3). O sogro o recebe com alegria e o segura por dias de comida e bebida (Juízes 19:4-9). No quinto dia, já à tarde, o levita insiste em partir.
Ao passarem por Jebus, a futura Jerusalém, o servo sugere dormir ali. O levita recusa: "Não nos retiraremos a nenhuma cidade estranha, que não seja dos filhos de Israel" (Juízes 19:12). A ideia parece prudente. Entre israelitas, eles estariam seguros. Seguem até Gibeá, cidade de Benjamim. Mas ninguém os recebe; ficam na praça (Juízes 19:15). Só um velho, que nem era de lá, oferece abrigo: "tão somente não passes a noite na praça" (Juízes 19:20).
À noite, homens da cidade cercam a casa e exigem que o hóspede saia "para que abusemos dele" (Juízes 19:22). Quem conhece Gênesis reconhece a cena: são quase as mesmas palavras dos homens de Sodoma diante da casa de Ló (Gênesis 19:4-5). A diferença é terrível. Em Sodoma, os anjos protegeram a casa. Em Gibeá, ninguém intervém. O dono da casa oferece a filha e a concubina, e o levita empurra a própria concubina para fora. Ela é violentada a noite inteira (Juízes 19:24-25).
O texto observa cada detalhe com uma frieza que dói. De manhã, o levita abre a porta "a seguir o seu caminho" e encontra a mulher caída, "com as mãos sobre o limiar" (Juízes 19:27). Ele só diz: "Levanta-te, e vamos" (Juízes 19:28). Ela não responde. Em casa, ele corta o corpo em doze partes e as envia a todo o Israel (Juízes 19:29). A reação é unânime: "Nunca tal se fez, nem se viu desde o dia em que os filhos de Israel subiram da terra do Egito" (Juízes 19:30).
Uma Guerra entre Irmãos (Juízes 20)
Pela primeira vez no livro, todo o Israel se reúne "como se fora um só homem, desde Dã até Berseba" (Juízes 20:1). Quatrocentos mil homens se apresentam em Mispa. Nunca as tribos estiveram tão unidas. A ironia é que estão unidas para lutar contra uma delas.
O levita conta a sua versão. Ela é curiosamente seletiva: diz que os homens de Gibeá "intentaram matar-me e violaram a minha concubina, de maneira que morreu" (Juízes 20:5). Não menciona que foi ele quem a entregou. O povo jura não voltar para casa até punir Gibeá (Juízes 20:8-10).
Antes de atacar, Israel faz o certo: pede a Benjamim que entregue os culpados, "para que os matemos e tiremos de Israel o mal" (Juízes 20:13). Mas Benjamim protege os seus e se prepara para a guerra, com vinte e seis mil homens e setecentos fundeiros canhotos que "atiravam com a funda uma pedra num cabelo e não erravam" (Juízes 20:15-16). Benjamim, a tribo de Eúde, o juiz canhoto (Juízes 3:15), agora usa a sua habilidade para defender criminosos.
O que segue surpreende. Israel consulta a Deus em Betel e recebe resposta: "Judá subirá primeiro" (Juízes 20:18). E perde vinte e dois mil homens. Chora diante do Senhor, pergunta de novo, recebe ordem de subir, e perde mais dezoito mil (Juízes 20:21-25). Só na terceira vez, depois de chorar, jejuar e oferecer sacrifícios, vem a promessa de vitória:
Repare na mudança da pergunta. Na primeira vez, Israel só queria saber quem iria na frente; a guerra já estava decidida. Depois da primeira derrota, passa a chamar Benjamim de "nosso irmão" (Juízes 20:23); na terceira vez, admite até a possibilidade de desistir. As derrotas ensinaram humildade a quem se sentia justo demais. Com uma emboscada parecida com a de Ai (Josué 8), Israel vence (Juízes 20:29-41). Mas não para na justiça: passa a fio de espada as cidades de Benjamim, "tanto homens como animais" (Juízes 20:48). Só seiscentos homens escapam para a penha Rimom (Juízes 20:47).

Remendos que Causam Novas Feridas (Juízes 21)
Passada a fúria, Israel chora: "Ah! Senhor, Deus de Israel, por que sucedeu isto em Israel, que, hoje, lhe falte uma tribo?" (Juízes 21:3). A pergunta é sincera, mas também estranha. Foram eles mesmos que fizeram isso. E para complicar, tinham jurado em Mispa que nenhum deles daria a filha em casamento a um benjamita (Juízes 21:1).
Para salvar Benjamim sem quebrar o juramento, inventam soluções que só multiplicam o mal. Primeiro, atacam Jabes-Gileade, cidade que não tinha ido à assembleia, matam os moradores e levam quatrocentas moças para os benjamitas (Juízes 21:8-14). Não bastam. Depois, autorizam os sobreviventes a se esconderem nas vinhas durante a festa anual em Siló e a raptar as moças que saíssem "a dançar em rodas" (Juízes 21:19-21). Aos pais que viessem reclamar, os anciãos pediriam compaixão (Juízes 21:22).
A história começou com a violência contra uma mulher e termina com a violência contra centenas. Tudo foi feito com cuidado religioso: juramentos, sacrifícios, consultas, festas do Senhor. Mas quase nada foi feito segundo o coração de Deus.
- Juízes 19:1-15: o levita, a concubina e a viagem de Belém até Gibeá.
- Juízes 19:16-30: a noite em Gibeá e o crime contra a concubina.
- Juízes 20:1-17: a assembleia de Israel em Mispa e a recusa de Benjamim.
- Juízes 20:18-48: as três batalhas em Gibeá e a quase destruição de Benjamim.
- Juízes 21:1-14: o luto de Israel e o ataque a Jabes-Gileade.
- Juízes 21:15-25: as moças de Siló e o refrão final do livro.
- Textos relacionados: Gênesis 19:4-5; Números 25:7; Josué 8; Juízes 3:15; 1 Samuel 10:26; 11:7; Oseias 9:9; 10:9.