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Rute 1-2: Rute e Noemi, Lealdade nos Campos de Belém
Uma viúva amargurada volta para Belém de mãos vazias, acompanhada de uma nora estrangeira que se recusa a deixá-la. Nos campos de cevada, a bondade de Deus começa a aparecer.
Uma História de Luz nos Dias Escuros
O livro de Juízes terminou com Israel dividido, violento e sem rumo. O livro de Rute começa no mesmo período, "nos dias em que julgavam os juízes" (Rute 1:1), mas conta uma história completamente diferente. Não há exércitos nem batalhas. Há uma família pobre, uma estrangeira, campos de cevada e gestos de bondade no dia a dia.
As ligações com o final de Juízes são claras. Lá, um levita de Belém de Judá viaja em busca de vantagem; aqui, uma família de Belém de Judá parte por causa da fome. Lá, a vida das mulheres não valia nada; aqui, duas viúvas estão no centro da história. Os dois primeiros capítulos de Rute fazem uma pergunta simples: onde está Deus quando a vida esvazia? A resposta vem devagar, escondida em coisas pequenas.

Uma Família que Sai de Belém (Rute 1:1-5)
"Houve fome na terra" (Rute 1:1). Há uma ironia no detalhe: Belém significa "casa do pão", e é justamente de lá que falta pão. Elimeleque leva a mulher, Noemi, e os dois filhos para Moabe, do outro lado do mar Morto.
Em poucos versículos, tudo desmorona. Elimeleque morre. Os filhos, Malom e Quiliom, se casam com moabitas, Orfa e Rute, e depois de quase dez anos morrem também. O versículo 5 resume a situação de Noemi: ficou "desamparada de seus dois filhos e de seu marido" (Rute 1:5). Numa sociedade em que a mulher dependia do marido e dos filhos para ter sustento e proteção, ela estava sem nada.
"O Teu Deus É o Meu Deus" (Rute 1:6-22)
Noemi ouve que "o Senhor se lembrara do seu povo, dando-lhe pão" (Rute 1:6), e decide voltar. As noras vão junto. No caminho, Noemi insiste que voltem para casa e lhes deseja o bem: "o Senhor use convosco de benevolência, como vós usastes com os que morreram e comigo" (Rute 1:8). Ela não tem nada a oferecer. Não tem outros filhos para casar com elas, e diz isso com amargura: "a mim me amarga o ter o Senhor descarregado contra mim a sua mão" (Rute 1:13).
Orfa se despede com um beijo. É uma decisão sensata, e o texto não a condena. "Porém Rute se apegou a ela" (Rute 1:14). Quando Noemi insiste mais uma vez, Rute responde com uma das declarações de lealdade mais bonitas da Bíblia:
Rute não promete só acompanhar a sogra. Ela troca de povo, de terra e de Deus, e jura pelo nome do Senhor que só a morte vai separá-las (Rute 1:17). E faz isso sem nenhuma garantia: como viúva estrangeira em Israel, a perspectiva era a pobreza e talvez a rejeição.
A chegada a Belém mexe com a cidade inteira. As mulheres perguntam: "Não é esta Noemi?" (Rute 1:19). A resposta dela é crua:
Noemi não esconde a dor nem finge uma fé que não sente. Ela fala com Deus e sobre Deus com sinceridade, como fazem os salmos de lamento. Mas repare no que ela diz: "voltar pobre", ou vazia. Ela ainda não percebe que não voltou sozinha: Rute está ao seu lado. E o capítulo termina com um detalhe de esperança: elas chegam "no princípio da sega da cevada" (Rute 1:22). A fome acabou. O tempo da colheita começou.
Espigas no Campo de Boaz (Rute 2)
O capítulo 2 começa apresentando alguém que o leitor ainda não conhece: um parente de Elimeleque, "senhor de muitos bens", chamado Boaz (Rute 2:1). Rute não sabe disso. Ela só quer sustentar a sogra e pede para ir ao campo rebuscar espigas "atrás daquele que mo favorecer" (Rute 2:2).
O texto então diz que ela "por casualidade entrou na parte que pertencia a Boaz" (Rute 2:3). O narrador sorri ao escrever isso. Para Rute é acaso; para o leitor, é a mão de Deus agindo sem aparecer. No mesmo instante, Boaz chega de Belém e cumprimenta os trabalhadores: "O Senhor seja convosco!" (Rute 2:4). Num livro que começou longe da casa do pão, a primeira coisa que ouvimos de Boaz é uma bênção.

Boaz vai muito além do que a Lei exigia. Pede que Rute fique no seu campo, junto com as servas, manda que os servos não a incomodem e lhe dá acesso à água (Rute 2:8-9). Rute se inclina até o chão e pergunta: "Como é que me favoreces e fazes caso de mim, sendo eu estrangeira?" (Rute 2:10). Boaz explica que já tinha ouvido falar da lealdade dela a Noemi, e a abençoa:
Na hora da refeição, Boaz a convida para comer com os segadores e lhe serve grãos tostados até sobrar (Rute 2:14). Depois, manda os servos deixarem espigas cair de propósito para ela (Rute 2:16). No fim do dia, Rute leva para casa "quase um efa de cevada" (Rute 2:17), uma quantidade muito acima do normal para uma respigadora, e ainda as sobras da refeição para Noemi (Rute 2:18).
Quando ouve o nome de Boaz, Noemi muda de tom. A mulher que se dizia vazia agora bendiz: "Bendito seja ele do Senhor, que ainda não tem deixado a sua benevolência nem para com os vivos nem para com os mortos" (Rute 2:20). E acrescenta uma informação decisiva: "Esse homem é nosso parente chegado e um dentre os nossos resgatadores" (Rute 2:20). Rute continua no campo de Boaz até o fim da colheita da cevada e do trigo (Rute 2:23).
- Rute 1:1-5: a fome, a ida a Moabe e as mortes na família de Noemi.
- Rute 1:6-18: a volta para Judá, a despedida de Orfa e a decisão de Rute.
- Rute 1:19-22: a chegada a Belém, Noemi e Mara, o começo da colheita.
- Rute 2:1-7: Rute rebusca espigas e chega ao campo de Boaz.
- Rute 2:8-16: a bondade de Boaz e a bênção sob as asas do Senhor.
- Rute 2:17-23: Noemi reconhece em Boaz um dos resgatadores da família.
- Textos relacionados: Gênesis 19:36-37; Levítico 19:9-10; Números 22:4-6; Deuteronômio 23:3; Juízes 3:14; Salmos 91:4.