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Série Gênesis a Apocalipse Estudo 101 de 114 publicados Ver o mapa da série →

Rute 1-2: Rute e Noemi, Lealdade nos Campos de Belém

Uma viúva amargurada volta para Belém de mãos vazias, acompanhada de uma nora estrangeira que se recusa a deixá-la. Nos campos de cevada, a bondade de Deus começa a aparecer.

Uma História de Luz nos Dias Escuros

O livro de Juízes terminou com Israel dividido, violento e sem rumo. O livro de Rute começa no mesmo período, "nos dias em que julgavam os juízes" (Rute 1:1), mas conta uma história completamente diferente. Não há exércitos nem batalhas. Há uma família pobre, uma estrangeira, campos de cevada e gestos de bondade no dia a dia.

As ligações com o final de Juízes são claras. Lá, um levita de Belém de Judá viaja em busca de vantagem; aqui, uma família de Belém de Judá parte por causa da fome. Lá, a vida das mulheres não valia nada; aqui, duas viúvas estão no centro da história. Os dois primeiros capítulos de Rute fazem uma pergunta simples: onde está Deus quando a vida esvazia? A resposta vem devagar, escondida em coisas pequenas.

Na estrada de Moabe, Rute se agarra a Noemi enquanto Orfa se despede e volta para o seu povo

Uma Família que Sai de Belém (Rute 1:1-5)

"Houve fome na terra" (Rute 1:1). Há uma ironia no detalhe: Belém significa "casa do pão", e é justamente de lá que falta pão. Elimeleque leva a mulher, Noemi, e os dois filhos para Moabe, do outro lado do mar Morto.

Em poucos versículos, tudo desmorona. Elimeleque morre. Os filhos, Malom e Quiliom, se casam com moabitas, Orfa e Rute, e depois de quase dez anos morrem também. O versículo 5 resume a situação de Noemi: ficou "desamparada de seus dois filhos e de seu marido" (Rute 1:5). Numa sociedade em que a mulher dependia do marido e dos filhos para ter sustento e proteção, ela estava sem nada.

Israel e Moabe
Moabe ficava a leste do mar Morto. Segundo Gênesis, os moabitas descendiam de Ló (Gênesis 19:36-37). A relação com Israel era tensa: Balaque, rei de Moabe, tinha mandado chamar Balaão para amaldiçoar o povo no deserto (Números 22:4-6), e a Lei dizia que "nenhum amonita ou moabita entrará na assembleia do Senhor" (Deuteronômio 23:3). Pouco antes, no livro de Juízes, Eglom, rei de Moabe, tinha oprimido Israel por dezoito anos (Juízes 3:14). Por isso o detalhe de que Rute é moabita, repetido várias vezes no livro, não é por acaso.

"O Teu Deus É o Meu Deus" (Rute 1:6-22)

Noemi ouve que "o Senhor se lembrara do seu povo, dando-lhe pão" (Rute 1:6), e decide voltar. As noras vão junto. No caminho, Noemi insiste que voltem para casa e lhes deseja o bem: "o Senhor use convosco de benevolência, como vós usastes com os que morreram e comigo" (Rute 1:8). Ela não tem nada a oferecer. Não tem outros filhos para casar com elas, e diz isso com amargura: "a mim me amarga o ter o Senhor descarregado contra mim a sua mão" (Rute 1:13).

Orfa se despede com um beijo. É uma decisão sensata, e o texto não a condena. "Porém Rute se apegou a ela" (Rute 1:14). Quando Noemi insiste mais uma vez, Rute responde com uma das declarações de lealdade mais bonitas da Bíblia:

Aonde quer que fores, irei eu e, onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus.

Rute não promete só acompanhar a sogra. Ela troca de povo, de terra e de Deus, e jura pelo nome do Senhor que só a morte vai separá-las (Rute 1:17). E faz isso sem nenhuma garantia: como viúva estrangeira em Israel, a perspectiva era a pobreza e talvez a rejeição.

A chegada a Belém mexe com a cidade inteira. As mulheres perguntam: "Não é esta Noemi?" (Rute 1:19). A resposta dela é crua:

Não me chameis Noemi; chamai-me Mara, porque grande amargura me tem dado o Todo-Poderoso. Ditosa eu parti, porém o Senhor me fez voltar pobre

Noemi não esconde a dor nem finge uma fé que não sente. Ela fala com Deus e sobre Deus com sinceridade, como fazem os salmos de lamento. Mas repare no que ela diz: "voltar pobre", ou vazia. Ela ainda não percebe que não voltou sozinha: Rute está ao seu lado. E o capítulo termina com um detalhe de esperança: elas chegam "no princípio da sega da cevada" (Rute 1:22). A fome acabou. O tempo da colheita começou.

Noemi e Mara
O nome Noemi vem de uma palavra hebraica que significa "agradável" ou "doce". Mara quer dizer "amarga", a mesma palavra que deu nome às águas amargas do deserto no tempo de Moisés. Ao pedir para ser chamada de Mara, Noemi diz que a vida dela perdeu a doçura. O livro inteiro mostra como Deus vai, aos poucos, devolver a doçura que ela achava perdida.

Espigas no Campo de Boaz (Rute 2)

O capítulo 2 começa apresentando alguém que o leitor ainda não conhece: um parente de Elimeleque, "senhor de muitos bens", chamado Boaz (Rute 2:1). Rute não sabe disso. Ela só quer sustentar a sogra e pede para ir ao campo rebuscar espigas "atrás daquele que mo favorecer" (Rute 2:2).

O texto então diz que ela "por casualidade entrou na parte que pertencia a Boaz" (Rute 2:3). O narrador sorri ao escrever isso. Para Rute é acaso; para o leitor, é a mão de Deus agindo sem aparecer. No mesmo instante, Boaz chega de Belém e cumprimenta os trabalhadores: "O Senhor seja convosco!" (Rute 2:4). Num livro que começou longe da casa do pão, a primeira coisa que ouvimos de Boaz é uma bênção.

Na hora da refeição, Boaz oferece grãos tostados a Rute, sentada ao lado dos segadores
O direito de rebuscar
A Lei de Moisés mandava que o dono do campo não colhesse tudo: "o canto do teu campo não segarás totalmente, nem as espigas caídas colherás". O que sobrava era para "o pobre e o estrangeiro" (Levítico 19:9-10). Rute era as duas coisas. Rebuscar era um trabalho cansativo e humilde, e uma moça sozinha no campo corria riscos. Por isso Boaz manda que os servos não a toquem (Rute 2:9), e Noemi depois aconselha que ela fique com as servas dele (Rute 2:22).

Boaz vai muito além do que a Lei exigia. Pede que Rute fique no seu campo, junto com as servas, manda que os servos não a incomodem e lhe dá acesso à água (Rute 2:8-9). Rute se inclina até o chão e pergunta: "Como é que me favoreces e fazes caso de mim, sendo eu estrangeira?" (Rute 2:10). Boaz explica que já tinha ouvido falar da lealdade dela a Noemi, e a abençoa:

O Senhor retribua o teu feito, e seja cumprida a tua recompensa do Senhor, Deus de Israel, sob cujas asas vieste buscar refúgio.

Na hora da refeição, Boaz a convida para comer com os segadores e lhe serve grãos tostados até sobrar (Rute 2:14). Depois, manda os servos deixarem espigas cair de propósito para ela (Rute 2:16). No fim do dia, Rute leva para casa "quase um efa de cevada" (Rute 2:17), uma quantidade muito acima do normal para uma respigadora, e ainda as sobras da refeição para Noemi (Rute 2:18).

Quando ouve o nome de Boaz, Noemi muda de tom. A mulher que se dizia vazia agora bendiz: "Bendito seja ele do Senhor, que ainda não tem deixado a sua benevolência nem para com os vivos nem para com os mortos" (Rute 2:20). E acrescenta uma informação decisiva: "Esse homem é nosso parente chegado e um dentre os nossos resgatadores" (Rute 2:20). Rute continua no campo de Boaz até o fim da colheita da cevada e do trigo (Rute 2:23).

Benevolência, a palavra que atravessa o livro
A palavra hebraica hesed, traduzida na ARA como "benevolência", aparece em momentos-chave do livro (Rute 1:8; 2:20). Ela descreve um amor leal, que vai além da obrigação. É o amor de Deus pela aliança, e também o amor de Rute por Noemi e de Boaz por Rute. Muitos intérpretes notam que, no livro, a benevolência de Deus aparece justamente através da benevolência das pessoas. A imagem das "asas" do Senhor (Rute 2:12) lembra a proteção descrita nos salmos: "sob suas asas, estarás seguro" (Salmos 91:4). E, mais adiante, Boaz será o meio pelo qual essa proteção vai alcançar Rute.
Conclusão: Deus nos detalhes
Em Rute 1-2 não há milagres, nem anjos, nem vozes do céu. Há uma estrangeira que escolhe ser leal, um homem que obedece à Lei com generosidade, uma sogra amargurada que aos poucos volta a bendizer, e um "acaso" que leva Rute ao campo certo. Nos dias escuros dos juízes, Deus continuava trabalhando por meio de gente comum que fazia o bem no seu dia a dia. A história convida a olhar para a nossa vida com esses olhos: a fidelidade nas coisas pequenas, a bondade com quem está de fora e a confiança de que Deus pode estar agindo mesmo quando tudo parece acaso.
Referências Bíblicas
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