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Série Gênesis a Apocalipse Estudo 85 de 89 publicados Ver o mapa da série →

Josué 6: A Queda de Jericó, a Vitória que Veio pela Obediência

Sete dias de silêncio, trombetas e uma arca rodeando a muralha. Jericó cai sem cerco nem máquinas de guerra, e uma mulher de fora é salva no meio da destruição.

Uma Cidade Fechada e uma Ordem Estranha

Israel tinha acabado de atravessar o Jordão. Em Gilgal, o povo renovou a aliança, celebrou a Páscoa e comeu pela primeira vez do fruto da terra. Josué, descalço diante do príncipe do exército do Senhor, aprendeu que não era ele quem comandava a guerra (Josué 5:13-15). Agora, à frente do acampamento, estava Jericó.

O capítulo começa com uma imagem de medo: "Jericó estava rigorosamente fechada por causa dos filhos de Israel; ninguém saía, nem entrava" (Josué 6:1). Era a primeira cidade da terra prometida, e a pergunta era óbvia: como tomar uma cidade murada sem experiência de cerco? A resposta de Deus não tem nada de estratégia militar. Josué 6 é a história de uma vitória que veio pela obediência, e de uma mulher de fora que foi salva no meio do juízo.

Do alto das muralhas, os moradores de Jericó observam em silêncio o povo de Israel rodeando a cidade

Sete Dias ao Redor da Muralha (Josué 6:1-14)

Antes de qualquer ordem, Deus fala como se a batalha já tivesse acabado: "Olha, entreguei na tua mão Jericó, o seu rei e os seus valentes" (Josué 6:2). O verbo está no passado. A vitória não dependia do plano; o plano era só o caminho para receber o que já estava dado.

E o plano era estranho. Durante seis dias, os homens de guerra deviam rodear a cidade uma vez por dia. No sétimo dia, sete voltas. À frente da arca, sete sacerdotes com sete trombetas de chifre de carneiro (Josué 6:3-4). No fim, um toque longo, um grito de todo o povo, e "o muro da cidade cairá abaixo" (Josué 6:5).

A procissão tinha uma ordem precisa. Os homens armados iam na frente, depois os sacerdotes com as trombetas, depois a arca, e a retaguarda fechava a marcha (Josué 6:9). No centro de tudo estava a arca, o sinal da presença do Senhor. Não era um exército marchando com a arca como amuleto; era a arca rodeando a cidade, com o povo acompanhando.

Havia ainda uma ordem difícil para um exército: o silêncio.

Não gritareis, nem fareis ouvir a vossa voz, nem sairá palavra alguma da vossa boca, até ao dia em que eu vos diga: gritai! Então, gritareis.

Durante seis dias, só as trombetas soaram. Nenhuma provocação, nenhum grito de guerra, nenhuma reclamação. "No segundo dia, rodearam, outra vez, a cidade e tornaram para o arraial; e assim fizeram por seis dias" (Josué 6:14). É fácil imaginar o que pensavam os moradores lá de cima, e talvez o que pensavam alguns israelitas lá embaixo. Mas o texto não registra nenhuma dúvida. Registra apenas que fizeram o que foi mandado, dia após dia.

A trombeta de chifre de carneiro
A trombeta de Josué 6 é o shofar, feita do chifre de um carneiro. Não era um instrumento musical para melodias, mas de sinal: anunciava assembleias, guerras e dias sagrados. A Lei manda tocá-la, por exemplo, no Dia da Expiação, "por toda a vossa terra" (Levítico 25:9). Em Jericó, as trombetas são tocadas por sacerdotes, diante da arca: o som anuncia que quem age ali é o Senhor.

O Grito e as Muralhas no Chão (Josué 6:15-21)

No sétimo dia, o povo madruga "ao subir da alva" e rodeia a cidade sete vezes (Josué 6:15). O número sete aparece por toda parte: sete sacerdotes, sete trombetas, sete dias, sete voltas. Na Bíblia, sete lembra a obra completa de Deus, desde os sete dias da criação. A conquista começa como uma liturgia, não como uma batalha.

Na sétima volta, Josué dá a ordem esperada há uma semana: "Gritai, porque o Senhor vos entregou a cidade!" (Josué 6:16). E o texto conta o resultado em poucas palavras:

Gritou, pois, o povo, e os sacerdotes tocaram as trombetas. Tendo ouvido o povo o sonido da trombeta e levantado grande grito, ruíram as muralhas, e o povo subiu à cidade, cada qual em frente de si, e a tomaram.

O Novo Testamento lê esse momento como um ato de fé: "Pela fé, ruíram as muralhas de Jericó, depois de rodeadas por sete dias" (Hebreus 11:30). A fé, aqui, não é um sentimento. É continuar caminhando ao redor de um muro que não dá sinal de ceder, porque Deus disse que ele cairia.

Antes do grito, porém, Josué faz um aviso sério. A cidade seria "condenada, ela e tudo quanto nela houver" (Josué 6:17). Ninguém podia ficar com nada para si: a prata, o ouro e os objetos de bronze e de ferro iriam "para o seu tesouro", o tesouro do Senhor (Josué 6:19). Quem desobedecesse tornaria "maldito o arraial de Israel" (Josué 6:18). Esse aviso prepara o próximo capítulo.

O que significa "cidade condenada"
A palavra traduzida por "condenada" é o hebraico herem: algo separado inteiramente para Deus, que não podia ser usado pelos homens. Em Jericó, isso significou a destruição da cidade (Josué 6:21) e a entrega dos metais ao tesouro do Senhor (Josué 6:24). A Lei já tinha dado essa ordem para as cidades de Canaã, "para que não vos ensinem a fazer segundo todas as suas abominações" (Deuteronômio 20:18). Este é um dos textos mais difíceis da Bíblia para o leitor de hoje, e é honesto reconhecer isso.
Como ler a destruição de Jericó
Intérpretes judeus e cristãos leem essa passagem de formas diferentes. Muitos lembram que a Bíblia apresenta a conquista como juízo sobre a maldade dos povos de Canaã, anunciado desde Abraão: "não se encheu ainda a medida da iniquidade dos amorreus" (Gênesis 15:16). Também lembram que Israel não é tratado como melhor: "Não é por causa da tua justiça… que entras a possuir a sua terra" (Deuteronômio 9:5). Outros destacam que a linguagem de destruição total era comum nos relatos de guerra do antigo Oriente Próximo. Em todas essas leituras, a conquista é vista como um momento único da história de Israel, e não como modelo para o povo de Deus em outras épocas.

Raabe e o Cordão de Escarlata (Josué 6:22-25)

No meio da cidade condenada, havia uma casa que seria poupada. Josué já tinha avisado: "somente viverá Raabe, a prostituta, e todos os que estiverem com ela em casa" (Josué 6:17). Ela tinha escondido os espias e pedido um juramento: que a sua família fosse salva (Josué 2:12-13). O sinal combinado foi o cordão de fio de escarlata amarrado à janela (Josué 2:18).

Raabe e sua família são conduzidos para fora da cidade pelos dois espias, com o cordão escarlate na janela ao fundo

Os mesmos dois homens que ela tinha protegido entram na casa e tiram de lá "Raabe, e seu pai, e sua mãe, e seus irmãos, e tudo quanto tinha" (Josué 6:23). A promessa foi cumprida ao pé da letra. Primeiro, eles ficam "fora do arraial de Israel". Depois, o texto acrescenta um detalhe que muda tudo:

Mas Josué conservou com vida a prostituta Raabe, e a casa de seu pai, e tudo quanto tinha; e habitou no meio de Israel até ao dia de hoje, porquanto escondera os mensageiros que Josué enviara a espiar Jericó.

Uma mulher cananeia, de uma cidade condenada e de uma profissão desprezada, passa a morar "no meio de Israel". O motivo foi a fé que ela demonstrou quando disse que "o Senhor, vosso Deus, é Deus em cima nos céus e embaixo na terra" (Josué 2:11). O Novo Testamento volta a ela duas vezes: Hebreus diz que "pela fé, Raabe, a meretriz, não foi destruída com os desobedientes" (Hebreus 11:31), e Tiago lembra que ela agiu quando "acolheu os emissários e os fez partir por outro caminho" (Tiago 2:25).

E a história dela não para aí. Na genealogia de Jesus, Mateus registra que "Salmom gerou de Raabe a Boaz" (Mateus 1:5). A estrangeira salva em Jericó se torna antepassada do rei Davi e do Messias.


A Maldição sobre Jericó e a Fama de Josué (Josué 6:26-27)

Depois da queda, Josué faz o povo jurar que a cidade não seria reconstruída: quem lançasse os seus fundamentos perderia o primogênito, e quem levantasse as portas perderia o filho mais novo (Josué 6:26). Jericó ficaria em ruínas como testemunho do que Deus fez ali.

Séculos depois, nos dias do rei Acabe, o livro de Reis conta que Hiel, de Betel, reconstruiu Jericó e perdeu os dois filhos, "segundo a palavra do Senhor, que falara por intermédio de Josué, filho de Num" (1 Reis 16:34). A palavra dita em Josué 6 não caiu no esquecimento.

O capítulo termina com uma frase curta: "Assim, era o Senhor com Josué; e corria a sua fama por toda a terra" (Josué 6:27). É o cumprimento do que Deus tinha dito antes da travessia do Jordão: "como fui com Moisés, assim serei contigo" (Josué 3:7). A fama era de Josué, mas a razão dela era o Senhor.

Conclusão: obedecer antes de ver
Josué 6 mostra uma vitória que não dependeu de força, mas de confiança. Israel caminhou seis dias em silêncio ao redor de um muro que continuava de pé, porque Deus tinha dito que a cidade já estava entregue. E, no meio do juízo, uma mulher que creu foi salva com toda a sua casa. Há muros na nossa vida que só cedem no tempo de Deus. A pergunta deste capítulo é se continuamos fazendo o que ele mandou enquanto o muro ainda está de pé.
Referências Bíblicas
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