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Juízes 11-12: Jefté e o Voto Precipitado
Um filho rejeitado é chamado de volta para salvar Gileade. Ele argumenta com a história, vence os amonitas e volta para casa preso a um voto que nunca deveria ter feito.
O Filho Rejeitado que Volta para Salvar
O estudo anterior terminou com uma pergunta. Os amonitas estavam acampados em Gileade, Israel tinha tirado os ídolos do meio de si, e os chefes se perguntavam: "Quem será o homem que começará a pelejar contra os filhos de Amom?" (Juízes 10:18). A resposta é a pessoa que ninguém queria por perto.
A história de Jefté é uma das mais difíceis de toda a Bíblia. Começa com rejeição, passa por uma vitória dada por Deus e termina com uma tragédia dentro da própria casa, provocada por palavras ditas sem pensar. No fim, ainda há uma guerra entre irmãos. O que a fé de Jefté tinha de verdadeiro, e onde ela se misturou com o pior do seu tempo?

Expulso e Chamado de Volta (Juízes 11:1-11)
O texto apresenta Jefté com duas informações que puxam para lados opostos: era "homem valente, porém filho de uma prostituta" (Juízes 11:1). Os filhos legítimos do pai o expulsam de casa: "Não herdarás em casa de nosso pai, porque és filho doutra mulher" (Juízes 11:2). Ele vai para a terra de Tobe, e "homens levianos se ajuntaram com ele" (Juízes 11:3). Vira líder de um bando, à margem da sociedade.
Quando a guerra aperta, os mesmos anciãos de Gileade vão buscá-lo. Jefté não esconde a mágoa: "Porventura, não me aborrecestes a mim e não me expulsastes da casa de meu pai? Por que, pois, vindes a mim, agora, quando estais em aperto?" (Juízes 11:7). Ele aceita, mas negocia: se vencer, será o cabeça de todos (Juízes 11:9). O acordo é selado "perante o Senhor, em Mispa" (Juízes 11:11).
A cena lembra o que o próprio Israel tinha acabado de fazer com Deus no capítulo anterior: abandoná-lo e voltar a ele só no aperto (Juízes 10:13-15). Há uma diferença, porém. Deus se comoveu com o povo (Juízes 10:16); Jefté faz um contrato.
Uma Resposta com a História na Mão (Juízes 11:12-28)
Antes de lutar, Jefté tenta a diplomacia. Manda perguntar ao rei de Amom por que ele atacou. O rei responde que Israel tomou a terra dele quando saiu do Egito, "desde Arnom até ao Jaboque", e quer de volta (Juízes 11:13).
A resposta de Jefté é longa e mostra que ele conhecia bem a história do seu povo. Israel não tomou terra de Moabe nem de Amom. Pediu passagem a Edom e a Moabe e, diante da recusa, deu a volta (Juízes 11:17-18). Pediu passagem a Seom, rei dos amorreus, e foi Seom quem atacou; foi dele, e não de Amom, que a terra foi tomada (Juízes 11:19-22). O relato bate com o de Números 21:21-24. E, se em trezentos anos ninguém reclamou, por que agora? (Juízes 11:26).
É a única vez no livro em que Deus é chamado de "juiz". Todos os juízes humanos passam; o verdadeiro juiz de Israel é o Senhor. O rei de Amom, porém, "não deu ouvidos" (Juízes 11:28).
O Voto (Juízes 11:29-40)
"Então, o Espírito do Senhor veio sobre Jefté" (Juízes 11:29). Era tudo o que ele precisava. Mas, logo depois, Jefté faz algo que Deus não tinha pedido:
O Senhor entrega os amonitas, e a derrota é "mui grande" (Juízes 11:32-33). Quando Jefté volta a Mispa, quem sai pela porta é a filha, "com adufes e com danças; e era ela filha única" (Juízes 11:34). Era costume as mulheres receberem os guerreiros vitoriosos com música, como Miriã fez depois do mar Vermelho (Êxodo 15:20). Jefté rasga as vestes: "Ah! Filha minha, tu me prostras por completo… fiz voto ao Senhor e não tornarei atrás" (Juízes 11:35).
A resposta da filha é de uma coragem que contrasta com a pressa do pai: "Pai meu, fizeste voto ao Senhor; faze, pois, de mim segundo o teu voto" (Juízes 11:36). Ela pede apenas dois meses para chorar pelos montes com as companheiras, e volta. O pai "lhe fez segundo o voto por ele proferido; assim, ela jamais foi possuída por varão" (Juízes 11:39). O texto nunca diz o nome dela. Mas registra que as moças de Israel passaram a sair "por quatro dias, de ano em ano, a cantar em memória da filha de Jefté" (Juízes 11:40).
O livro de Provérbios descreve bem o erro de Jefté: "Laço é para o homem o dizer precipitadamente: É santo! E só refletir depois de fazer o voto" (Provérbios 20:25). Ele já tinha o Espírito do Senhor e não precisava comprar a vitória. O voto revela uma ideia de Deus mais parecida com a dos povos vizinhos, que tentavam garantir o favor dos deuses com ofertas cada vez maiores, do que com a do Deus que tinha se comovido com a miséria de Israel.
Chibolete nos Vaus do Jordão (Juízes 12)
Como tinham feito com Gideão (Juízes 8:1), os homens de Efraim aparecem depois da vitória reclamando de não terem sido chamados. Desta vez com ameaça: "Queimaremos a tua casa, estando tu dentro dela" (Juízes 12:1). Jefté diz que os chamou e eles não vieram (Juízes 12:2-3). Mas, ao contrário de Gideão, não acalma ninguém. Reúne Gileade e luta contra Efraim (Juízes 12:4).
Os gileaditas tomam os vaus do Jordão. Quem quisesse atravessar tinha de dizer uma palavra:

É um final sombrio: a primeira vitória de Jefté foi sobre os amonitas; a segunda, sobre os próprios irmãos. Jefté julgou Israel seis anos e foi sepultado em Gileade (Juízes 12:7). O capítulo termina com três juízes de quem quase nada se sabe: Ibsã, de Belém, com trinta filhos e trinta filhas (Juízes 12:8-9); Elom, de Zebulom, que julgou dez anos (Juízes 12:11); e Abdom, com quarenta filhos e trinta netos "que cavalgavam setenta jumentos" (Juízes 12:14). São anos de relativa calma antes da próxima grande crise, a dos filisteus.
- Juízes 11:1-11: Jefté, o filho expulso, é chamado para ser chefe de Gileade.
- Juízes 11:12-28: a mensagem ao rei de Amom e a história da conquista da Transjordânia.
- Juízes 11:29-33: o Espírito do Senhor sobre Jefté, o voto e a vitória.
- Juízes 11:34-40: a filha de Jefté e a memória anual das filhas de Israel.
- Juízes 12:1-7: a guerra contra Efraim e o chibolete nos vaus do Jordão.
- Juízes 12:8-15: os juízes Ibsã, Elom e Abdom.
- Textos relacionados: Levítico 27:2-4; Números 21:21-24; Deuteronômio 12:31; 18:10; 23:21-23; Juízes 8:1; Provérbios 20:25; Eclesiastes 5:4-5; Hebreus 11:32.