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Série Gênesis a Apocalipse Estudo 97 de 99 publicados Ver o mapa da série →

Juízes 11-12: Jefté e o Voto Precipitado

Um filho rejeitado é chamado de volta para salvar Gileade. Ele argumenta com a história, vence os amonitas e volta para casa preso a um voto que nunca deveria ter feito.

O Filho Rejeitado que Volta para Salvar

O estudo anterior terminou com uma pergunta. Os amonitas estavam acampados em Gileade, Israel tinha tirado os ídolos do meio de si, e os chefes se perguntavam: "Quem será o homem que começará a pelejar contra os filhos de Amom?" (Juízes 10:18). A resposta é a pessoa que ninguém queria por perto.

A história de Jefté é uma das mais difíceis de toda a Bíblia. Começa com rejeição, passa por uma vitória dada por Deus e termina com uma tragédia dentro da própria casa, provocada por palavras ditas sem pensar. No fim, ainda há uma guerra entre irmãos. O que a fé de Jefté tinha de verdadeiro, e onde ela se misturou com o pior do seu tempo?

Os anciãos de Gileade vão à terra de Tobe pedir a Jefté que seja o chefe deles

Expulso e Chamado de Volta (Juízes 11:1-11)

O texto apresenta Jefté com duas informações que puxam para lados opostos: era "homem valente, porém filho de uma prostituta" (Juízes 11:1). Os filhos legítimos do pai o expulsam de casa: "Não herdarás em casa de nosso pai, porque és filho doutra mulher" (Juízes 11:2). Ele vai para a terra de Tobe, e "homens levianos se ajuntaram com ele" (Juízes 11:3). Vira líder de um bando, à margem da sociedade.

Quando a guerra aperta, os mesmos anciãos de Gileade vão buscá-lo. Jefté não esconde a mágoa: "Porventura, não me aborrecestes a mim e não me expulsastes da casa de meu pai? Por que, pois, vindes a mim, agora, quando estais em aperto?" (Juízes 11:7). Ele aceita, mas negocia: se vencer, será o cabeça de todos (Juízes 11:9). O acordo é selado "perante o Senhor, em Mispa" (Juízes 11:11).

A cena lembra o que o próprio Israel tinha acabado de fazer com Deus no capítulo anterior: abandoná-lo e voltar a ele só no aperto (Juízes 10:13-15). Há uma diferença, porém. Deus se comoveu com o povo (Juízes 10:16); Jefté faz um contrato.


Uma Resposta com a História na Mão (Juízes 11:12-28)

Antes de lutar, Jefté tenta a diplomacia. Manda perguntar ao rei de Amom por que ele atacou. O rei responde que Israel tomou a terra dele quando saiu do Egito, "desde Arnom até ao Jaboque", e quer de volta (Juízes 11:13).

A resposta de Jefté é longa e mostra que ele conhecia bem a história do seu povo. Israel não tomou terra de Moabe nem de Amom. Pediu passagem a Edom e a Moabe e, diante da recusa, deu a volta (Juízes 11:17-18). Pediu passagem a Seom, rei dos amorreus, e foi Seom quem atacou; foi dele, e não de Amom, que a terra foi tomada (Juízes 11:19-22). O relato bate com o de Números 21:21-24. E, se em trezentos anos ninguém reclamou, por que agora? (Juízes 11:26).

Não sou eu, portanto, quem pecou contra ti! Porém tu fazes mal em pelejar contra mim; o Senhor, que é juiz, julgue hoje entre os filhos de Israel e os filhos de Amom.

É a única vez no livro em que Deus é chamado de "juiz". Todos os juízes humanos passam; o verdadeiro juiz de Israel é o Senhor. O rei de Amom, porém, "não deu ouvidos" (Juízes 11:28).

Quemos e os deuses das nações
Jefté diz ao rei: "aquilo que Quemos, teu deus, te dá consideras como tua possessão" (Juízes 11:24). Quemos era o deus nacional dos moabitas, e a mensagem mistura Amom e Moabe, talvez porque a terra em disputa tinha sido moabita antes dos amorreus. No antigo Oriente Próximo era comum pensar que cada povo recebia sua terra do seu deus. Jefté usa a linguagem do adversário para argumentar, o que não significa que ele colocasse Quemos no mesmo nível do Senhor.

O Voto (Juízes 11:29-40)

"Então, o Espírito do Senhor veio sobre Jefté" (Juízes 11:29). Era tudo o que ele precisava. Mas, logo depois, Jefté faz algo que Deus não tinha pedido:

Se, com efeito, me entregares os filhos de Amom nas minhas mãos, quem primeiro da porta da minha casa me sair ao encontro, voltando eu vitorioso dos filhos de Amom, esse será do Senhor, e eu o oferecerei em holocausto.

O Senhor entrega os amonitas, e a derrota é "mui grande" (Juízes 11:32-33). Quando Jefté volta a Mispa, quem sai pela porta é a filha, "com adufes e com danças; e era ela filha única" (Juízes 11:34). Era costume as mulheres receberem os guerreiros vitoriosos com música, como Miriã fez depois do mar Vermelho (Êxodo 15:20). Jefté rasga as vestes: "Ah! Filha minha, tu me prostras por completo… fiz voto ao Senhor e não tornarei atrás" (Juízes 11:35).

A resposta da filha é de uma coragem que contrasta com a pressa do pai: "Pai meu, fizeste voto ao Senhor; faze, pois, de mim segundo o teu voto" (Juízes 11:36). Ela pede apenas dois meses para chorar pelos montes com as companheiras, e volta. O pai "lhe fez segundo o voto por ele proferido; assim, ela jamais foi possuída por varão" (Juízes 11:39). O texto nunca diz o nome dela. Mas registra que as moças de Israel passaram a sair "por quatro dias, de ano em ano, a cantar em memória da filha de Jefté" (Juízes 11:40).

Jefté sacrificou a filha?
Esta é uma das passagens mais discutidas de Juízes. A leitura mais antiga, comum entre intérpretes judeus e cristãos dos primeiros séculos, é que Jefté de fato a ofereceu em holocausto, num ato terrível que a Lei proibia: Deus chama de abominação queimar filhos e filhas (Deuteronômio 12:31; 18:10). Outros intérpretes, sobretudo a partir da Idade Média, propõem que ela foi consagrada ao serviço do Senhor e ficou solteira para sempre, apoiando-se no fato de que ela chora a virgindade, não a morte, e na frase "ela jamais foi possuída por varão" (Juízes 11:37-39). As duas leituras concordam num ponto: o texto não aprova o voto. Deus não pediu nada disso, e a própria Lei previa resgatar com prata as pessoas consagradas por voto (Levítico 27:2-4).

O livro de Provérbios descreve bem o erro de Jefté: "Laço é para o homem o dizer precipitadamente: É santo! E só refletir depois de fazer o voto" (Provérbios 20:25). Ele já tinha o Espírito do Senhor e não precisava comprar a vitória. O voto revela uma ideia de Deus mais parecida com a dos povos vizinhos, que tentavam garantir o favor dos deuses com ofertas cada vez maiores, do que com a do Deus que tinha se comovido com a miséria de Israel.


Chibolete nos Vaus do Jordão (Juízes 12)

Como tinham feito com Gideão (Juízes 8:1), os homens de Efraim aparecem depois da vitória reclamando de não terem sido chamados. Desta vez com ameaça: "Queimaremos a tua casa, estando tu dentro dela" (Juízes 12:1). Jefté diz que os chamou e eles não vieram (Juízes 12:2-3). Mas, ao contrário de Gideão, não acalma ninguém. Reúne Gileade e luta contra Efraim (Juízes 12:4).

Os gileaditas tomam os vaus do Jordão. Quem quisesse atravessar tinha de dizer uma palavra:

Nos vaus do Jordão, guardas de Gileade param um fugitivo de Efraim e pedem que diga chibolete
Dize, pois, chibolete; quando dizia sibolete, não podendo exprimir bem a palavra, então, pegavam dele e o matavam nos vaus do Jordão. E caíram de Efraim, naquele tempo, quarenta e dois mil.
Chibolete
A palavra hebraica shibbolet pode significar "espiga" ou "correnteza". O que importava não era o sentido, mas a pronúncia: os efraimitas, pelo jeito, não faziam o som "ch" (sh) no começo da palavra e diziam "sibolete". Um sotaque bastava para separar a vida da morte. A palavra entrou em várias línguas, inclusive no português, como sinônimo de senha ou de traço que identifica um grupo.

É um final sombrio: a primeira vitória de Jefté foi sobre os amonitas; a segunda, sobre os próprios irmãos. Jefté julgou Israel seis anos e foi sepultado em Gileade (Juízes 12:7). O capítulo termina com três juízes de quem quase nada se sabe: Ibsã, de Belém, com trinta filhos e trinta filhas (Juízes 12:8-9); Elom, de Zebulom, que julgou dez anos (Juízes 12:11); e Abdom, com quarenta filhos e trinta netos "que cavalgavam setenta jumentos" (Juízes 12:14). São anos de relativa calma antes da próxima grande crise, a dos filisteus.

Conclusão: a fé que não precisa negociar
A carta aos Hebreus inclui Jefté entre os heróis da fé (Hebreus 11:32), e há motivo: um homem rejeitado pelos seus foi usado por Deus para salvar o povo, e ele conhecia a história do que Deus tinha feito. Mas a sua fé estava misturada com a lógica do contrato: com os anciãos, com Deus e até com a vida da filha. Ele tentou garantir com uma promessa o que Deus já ia dar de graça. A história nos convida a examinar as nossas próprias barganhas com Deus e a lembrar o conselho de Eclesiastes: "Melhor é que não votes do que votes e não cumpras" (Eclesiastes 5:5). O Deus de Israel não precisa ser comprado.
Referências Bíblicas
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