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Série Gênesis a Apocalipse Estudo 96 de 99 publicados Ver o mapa da série →

Juízes 9-10: Abimeleque, o Rei Usurpador

O filho de Gideão compra apoio com a prata de um templo de Baal, mata setenta irmãos e se faz rei. Jotão conta uma fábula das árvores, e Deus faz cair o mal sobre quem o praticou.

O Rei que Ninguém Chamou

Gideão tinha recusado a coroa com uma frase firme: "o Senhor vos dominará" (Juízes 8:23). Mas deixou setenta filhos, uma estola de ouro em Ofra e mais um filho, nascido de uma concubina de Siquém, a quem deu o nome de Abimeleque (Juízes 8:31). Assim que Gideão morre, Israel volta a Baal e põe "Baal-Berite por deus" (Juízes 8:33).

Juízes 9 é diferente das histórias anteriores. Não há opressor estrangeiro, nem clamor do povo, nem juiz levantado por Deus. O inimigo agora é um israelita que quer o poder e faz qualquer coisa para tê-lo. Quem é o verdadeiro rei de Israel, e o que acontece quando alguém toma esse lugar à força?

Abimeleque é proclamado rei pelos cidadãos de Siquém junto ao carvalho memorial

Setenta Irmãos sobre uma Pedra (Juízes 9:1-6)

Abimeleque vai a Siquém, à família da mãe, e faz uma campanha simples. A pergunta que propõe aos cidadãos é calculada: "Que vos parece melhor: que setenta homens, todos os filhos de Jerubaal, dominem sobre vós ou que apenas um domine sobre vós? Lembrai-vos também de que sou osso vosso e carne vossa" (Juízes 9:2). O argumento não é justiça nem chamado de Deus. É parentesco: "É nosso irmão" (Juízes 9:3).

O dinheiro da campanha vem de um templo pagão: setenta peças de prata "da casa de Baal-Berite" (Juízes 9:4). Com elas, Abimeleque contrata "homens levianos e atrevidos", vai a Ofra e mata os setenta irmãos "sobre uma pedra" (Juízes 9:5). Só escapa o mais novo, Jotão, que se escondeu. Depois, os cidadãos de Siquém o proclamam rei "junto ao carvalho memorial que está perto de Siquém" (Juízes 9:6).

Siquém, a cidade da aliança
Siquém tinha uma longa história com o povo de Deus. Abrão parou ali "até ao carvalho de Moré" (Gênesis 12:6), Jacó comprou um campo perto da cidade (Gênesis 33:19), e foi em Siquém que Josué reuniu as tribos para renovar a aliança, erguendo uma grande pedra "debaixo do carvalho" (Josué 24:25-26). O nome Baal-Berite costuma ser entendido como "senhor da aliança". A ironia é amarga: no lugar onde Israel prometeu servir só ao Senhor, o povo agora paga um usurpador com a prata de Baal e o coroa junto ao mesmo tipo de carvalho memorial.

A Fábula de Jotão (Juízes 9:7-21)

Jotão sobe ao monte Gerizim, de onde se via Siquém, e grita para a cidade: "Ouvi-me, cidadãos de Siquém, e Deus vos ouvirá a vós outros" (Juízes 9:7). Então conta uma fábula. As árvores querem um rei. Oferecem o trono à oliveira, à figueira e à videira, e as três recusam. Cada uma tinha algo útil para dar: o óleo, o fruto doce, o vinho. Por que deixariam isso "para pairar sobre as árvores"? (Juízes 9:9-13).

Por fim as árvores procuram o espinheiro, que não dá fruto nem sombra. E ele aceita:

Se, deveras, me ungis rei sobre vós, vinde e refugiai-vos debaixo de minha sombra; mas, se não, saia do espinheiro fogo que consuma os cedros do Líbano.

A imagem é quase cômica: um arbusto rasteiro oferecendo sombra aos cedros. Mas a ameaça é séria. O espinheiro seco pega fogo com facilidade, e o fogo se espalha. Jotão explica a fábula sem rodeios. Se os siquemitas agiram com sinceridade com a casa de Gideão, que se alegrem com o novo rei. "Mas, se não, saia fogo de Abimeleque e consuma os cidadãos de Siquém e Bete-Milo; e saia fogo dos cidadãos de Siquém e de Bete-Milo, que consuma a Abimeleque" (Juízes 9:20). Depois foge para Beer (Juízes 9:21).

O que é um apólogo?
A fábula de Jotão é o primeiro texto desse tipo na Bíblia: uma história curta, com plantas ou animais falando, que serve para criticar uma situação real. As árvores boas recusam o poder porque estão ocupadas servindo. Só quem não tem nada a oferecer quer reinar a qualquer custo. A crítica não é contra toda autoridade, mas contra a liderança que nasce da ambição e não do serviço.

O Fogo Sai do Espinheiro (Juízes 9:22-57)

Abimeleque domina três anos. Então o texto diz algo importante: "suscitou Deus um espírito de aversão entre Abimeleque e os cidadãos de Siquém" (Juízes 9:23). O motivo é dado logo em seguida: "para que a vingança da violência praticada contra os setenta filhos de Jerubaal viesse" sobre Abimeleque e sobre os que o ajudaram (Juízes 9:24). Deus não aparece nessa história com milagres, mas não está ausente. Ele deixa o mal se voltar contra quem o fez.

Os siquemitas começam a assaltar quem passa pelos montes (Juízes 9:25). Aparece então Gaal, filho de Ebede, que se instala na cidade e, numa festa da colheita no templo do deus local, provoca: "Quem é Abimeleque, e quem somos nós de Siquém, para que o sirvamos?" (Juízes 9:28). O governador Zebul avisa Abimeleque, que arma uma emboscada. Gaal vê os soldados descendo e Zebul zomba dele: "As sombras dos montes vês por homens" (Juízes 9:36). Gaal perde a batalha e é expulso (Juízes 9:39-41).

Abimeleque não para aí. No dia seguinte ataca o povo no campo, toma Siquém, mata os moradores e "a semeou de sal" (Juízes 9:45). Os que se refugiam na fortaleza do templo de El-Berite morrem queimados: Abimeleque corta ramos no monte Salmom, empilha-os sobre a fortaleza e põe fogo, matando "uns mil homens e mulheres" (Juízes 9:46-49). A primeira metade da maldição de Jotão se cumpre ao pé da letra: o fogo sai de Abimeleque e consome Siquém.

Do alto de uma torre de pedra em Tebes, uma mulher lança uma pedra de moinho sobre Abimeleque, que tenta incendiar a porta

Falta a outra metade. Abimeleque ataca Tebes, onde o povo se refugia numa torre forte. Quando ele se aproxima da porta para incendiá-la, como tinha feito em Siquém, "certa mulher lançou uma pedra superior de moinho sobre a cabeça de Abimeleque e lhe quebrou o crânio" (Juízes 9:53). Ferido, ele pede ao escudeiro que o mate, "para que não se diga de mim: Mulher o matou" (Juízes 9:54). Não adiantou: séculos depois, o general Joabe ainda lembrava que foi uma mulher quem lançou "um pedaço de mó corredora" sobre ele em Tebes (2 Samuel 11:21).

Assim, Deus fez tornar sobre Abimeleque o mal que fizera a seu pai, por ter aquele matado os seus setenta irmãos. De igual modo, todo o mal dos homens de Siquém Deus fez cair sobre a cabeça deles. Assim, veio sobre eles a maldição de Jotão, filho de Jerubaal.

Dois Juízes Quietos e um Povo que Clama (Juízes 10)

Depois da tempestade, o capítulo 10 começa em silêncio. Tola, de Issacar, se levanta "para livrar Israel" e julga vinte e três anos (Juízes 10:1-2). Depois dele, Jair, de Gileade, julga vinte e dois anos. O detalhe sobre Jair é curioso: "Tinha este trinta filhos, que cavalgavam trinta jumentos; e tinham trinta cidades" (Juízes 10:4). Andar de jumento era sinal de posição. São lideranças sem grandes batalhas, mas que mantêm o povo de pé.

Então o ciclo volta, e pior. A lista de deuses que Israel passa a servir é a mais longa do livro: os baalins, Astarote, os deuses da Síria, de Sidom, de Moabe, de Amom e dos filisteus. E o resumo é seco: "deixaram o Senhor e não o serviram" (Juízes 10:6). Deus os entrega aos filisteus e aos amonitas, que oprimem Israel por dezoito anos, sobretudo do outro lado do Jordão (Juízes 10:7-9).

Quando o povo clama, Deus responde de um jeito que não tinha respondido antes. Lembra todas as vezes que os livrou e diz:

Contudo, vós me deixastes a mim e servistes a outros deuses, pelo que não vos livrarei mais. Ide e clamai aos deuses que escolhestes; eles que vos livrem no tempo do vosso aperto.

A resposta de Israel desta vez vai além das palavras. Eles confessam, "Temos pecado; faze-nos tudo quanto te parecer bem; porém livra-nos ainda esta vez", e fazem algo concreto: "tiraram os deuses alheios do meio de si e serviram ao Senhor" (Juízes 10:15-16). E o texto termina a cena com uma das frases mais ternas do livro: "já não pôde ele reter a sua compaixão por causa da desgraça de Israel" (Juízes 10:16).

O capítulo fecha em suspense. Os amonitas acampam em Gileade, Israel se reúne em Mispa, e os chefes se perguntam: "Quem será o homem que começará a pelejar contra os filhos de Amom?" (Juízes 10:18). A resposta será Jefté, no próximo estudo.

Deus age mesmo quando não aparece
Em Juízes 9, Deus não fala com ninguém, não envia anjo nem juiz. Mesmo assim, o narrador diz duas vezes que foi ele quem fez o mal voltar sobre os culpados (Juízes 9:23, 56). Muitos leitores veem aqui um retrato de como Deus governa a história também por caminhos comuns: conflitos, alianças que se desfazem, uma pedra de moinho no lugar certo. O apóstolo Paulo resume um princípio parecido: "aquilo que o homem semear, isso também ceifará" (Gálatas 6:7). Já Juízes 10 mostra o outro lado: o mesmo Deus que deixa o mal colher o que plantou se comove com o povo que se arrepende de verdade.
Conclusão: a sombra do espinheiro
Abimeleque é o retrato do líder que a fábula de Jotão descreve: sem fruto para dar, oferece uma sombra que não protege ninguém e termina pegando fogo junto com quem confiou nele. Siquém escolheu o "irmão" que convinha e pagou caro por isso. A história pergunta a quem damos o nosso apoio e por quê: pelo serviço, como a oliveira, a figueira e a videira, ou pela conveniência de quem é do nosso grupo? E o capítulo 10 lembra que, mesmo depois de tanto erro, ainda há caminho de volta: tirar os ídolos do meio de nós e servir ao Senhor.
Referências Bíblicas
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