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Juízes 6-8: Gideão, o Guerreiro Relutante e os Trezentos
Um homem escondido num lagar é chamado de valente, pede sinais com uma porção de lã e vence um exército com trezentos homens, trombetas e cântaros. Depois, tropeça no ouro.
Um Herói que Começa Escondido
Depois do cântico de Débora, a terra teve quarenta anos de paz. Então o ciclo gira de novo: "Fizeram os filhos de Israel o que era mau perante o Senhor; por isso, o Senhor os entregou nas mãos dos midianitas por sete anos" (Juízes 6:1). Desta vez o inimigo não é um rei com carros de ferro, mas uma onda de nômades que chega todo ano na época da colheita.
A história de Gideão é a mais longa entre as dos juízes até aqui, e uma das mais conhecidas. Ela tem trezentos homens, trombetas e tochas na noite. Mas também tem medo, pedidos de sinais, vingança e um final que deixa um gosto amargo. A pergunta que atravessa os três capítulos é simples: de quem é a vitória?

O Valente no Lagar (Juízes 6:1-24)
Os midianitas, os amalequitas e os "povos do Oriente" subiam sempre que Israel semeava. Acampavam, destruíam a colheita e levavam o gado. O texto os compara a uma praga: "vinham como gafanhotos, em tanta multidão, que não se podiam contar, nem a eles nem aos seus camelos" (Juízes 6:5). Os israelitas passaram a viver em covas e cavernas nos montes (Juízes 6:2).
Quando o povo clama, Deus primeiro manda um profeta, que não traz ainda a libertação, mas um diagnóstico. O Senhor lembra o Egito e a terra dada, e conclui: "não temais os deuses dos amorreus, em cuja terra habitais; contudo, não destes ouvidos à minha voz" (Juízes 6:10). O problema de Israel não começava em Midiã.
Então o Anjo do Senhor aparece em Ofra. Gideão está "malhando o trigo no lagar, para o pôr a salvo dos midianitas" (Juízes 6:11). O trigo normalmente era batido numa eira aberta, onde o vento levava a palha. Fazer isso dentro de um lagar, um tanque de pedra para pisar uvas, era trabalhar escondido. É nesse lugar que ele ouve:
A saudação parece quase irônica. E Gideão responde com uma pergunta honesta: "Se o Senhor é conosco, por que nos sobreveio tudo isto? E que é feito de todas as suas maravilhas que nossos pais nos contaram" (Juízes 6:13). Deus não discute. Apenas o envia: "Vai nessa tua força e livra Israel da mão dos midianitas; porventura, não te enviei eu?" (Juízes 6:14).
Gideão se acha pequeno demais: "a minha família é a mais pobre em Manassés, e eu, o menor na casa de meu pai" (Juízes 6:15). A resposta lembra a que Moisés ouviu na sarça, "Eu serei contigo" (Êxodo 3:12): "Já que eu estou contigo, ferirás os midianitas como se fossem um só homem" (Juízes 6:16). Gideão pede um sinal, prepara uma oferta, e o fogo sobe da pedra e a consome (Juízes 6:21). Assustado por ter visto o Anjo do Senhor face a face, ele ouve "Paz seja contigo! Não temas! Não morrerás!" e constrói ali um altar chamado "O Senhor É Paz" (Juízes 6:23-24).
O Altar de Baal e a Prova da Lã (Juízes 6:25-40)
A primeira missão de Gideão não é contra Midiã, mas dentro de casa. Naquela mesma noite, Deus manda derrubar "o altar de Baal que é de teu pai" e cortar o poste-ídolo ao lado, e construir no lugar um altar ao Senhor (Juízes 6:25-26). Gideão obedece, mas com medo: "não o fez de dia, mas de noite" (Juízes 6:27).
De manhã, os homens da cidade querem matá-lo. Quem o defende é o próprio pai, dono do altar: "Se é deus, que por si mesmo contenda; pois derribaram o seu altar" (Juízes 6:31). Daí vem o apelido de Gideão, Jerubaal, "Baal contenda contra ele" (Juízes 6:32). O nome passa a ser uma lembrança de que Baal não conseguiu se defender.
Quando os inimigos se reúnem no vale de Jezreel, "o Espírito do Senhor revestiu a Gideão" (Juízes 6:34). Ele toca a trombeta e convoca Manassés, Aser, Zebulom e Naftali. Mesmo assim, ainda pede confirmação. Põe uma porção de lã na eira e pede que só ela fique molhada de orvalho. Na manhã seguinte, espreme da lã "uma taça cheia de água" (Juízes 6:38). Depois pede o contrário, com cuidado: "Não se acenda contra mim a tua ira, se ainda falar só esta vez" (Juízes 6:39). E Deus atende de novo (Juízes 6:40).

Trezentos Homens, Trombetas e Cântaros (Juízes 7)
Gideão acampa junto à fonte de Harode com trinta e dois mil homens. Para Deus, é gente demais, e o motivo é dito claramente:
Primeiro voltam para casa os medrosos: vinte e dois mil. Ficam dez mil (Juízes 7:3). Depois vem a prova da água. Os homens descem para beber, e ficam apenas os que "lamberam, levando a mão à boca, trezentos homens" (Juízes 7:6). O texto não explica por que esses foram escolhidos, e muitas explicações sobre "soldados mais atentos" vão além do que está escrito. O ponto da história é o número: com trezentos, ninguém poderia dizer que venceu pela própria força.
Deus ainda dá um último encorajamento. Manda Gideão descer de noite com o servo Pura até o acampamento inimigo, "se ainda temes atacar" (Juízes 7:10). Lá ele ouve um soldado contar um sonho: um pão de cevada rolava contra o arraial e derrubava a tenda. O companheiro interpreta: "Não é isto outra coisa, senão a espada de Gideão" (Juízes 7:14). O pão de cevada era comida de gente pobre. O inimigo já tinha medo de Israel. Gideão adora a Deus ali mesmo (Juízes 7:15).
- Os trezentos são divididos em três companhias, cada homem com uma trombeta e um cântaro vazio com uma tocha dentro (Juízes 7:16).
- Eles cercam o arraial logo depois da troca da guarda, "ao princípio da vigília média" (Juízes 7:19).
- Ao sinal, tocam as trombetas, quebram os cântaros e erguem as tochas, gritando: "Espada pelo Senhor e por Gideão!" (Juízes 7:20).
- Ninguém avança: "permaneceu cada um no seu lugar ao redor do arraial" (Juízes 7:21).
- "O Senhor tornou a espada de um contra o outro" (Juízes 7:22), e o exército foge para o Jordão.
A vitória é de Deus, e o texto faz questão de mostrar isso: os trezentos não lutam, só ficam de pé segurando luz e som. Depois, as outras tribos são chamadas para a perseguição, e os homens de Efraim capturam e matam os príncipes Orebe e Zeebe junto ao Jordão (Juízes 7:24-25). Séculos depois, o profeta Isaías ainda lembraria esse dia como modelo de libertação: Deus quebraria o jugo do opressor "como no dia dos midianitas" (Isaías 9:4).
Depois da Vitória (Juízes 8)
O capítulo 8 mostra um Gideão diferente. Com Efraim, que reclama de não ter sido chamado, ele é diplomático e acalma a briga com elogios (Juízes 8:1-3). Mas, ao atravessar o Jordão com os trezentos, "cansados mas ainda perseguindo" (Juízes 8:4), pede pão às cidades de Sucote e Penuel e recebe zombaria. Ele promete voltar, e volta: castiga os anciãos de Sucote com espinhos, derruba a torre de Penuel e mata os homens da cidade (Juízes 8:16-17). Os alvos agora são israelitas.
Ele captura os reis Zeba e Salmuna e descobre que eles tinham matado seus irmãos no Tabor. A guerra de Deus vira também uma vingança de família: "se os tivésseis deixado com vida, eu não vos mataria a vós outros" (Juízes 8:19). Gideão manda o filho Jéter, ainda menino, executar os reis; o garoto tem medo, e o próprio Gideão os mata (Juízes 8:20-21).
Então o povo lhe oferece a coroa, uma dinastia inteira. A resposta de Gideão é uma das frases mais bonitas do livro:
Mas, logo em seguida, ele pede as argolas de ouro do despojo. Junta mil e setecentos siclos de ouro e faz com eles uma estola sacerdotal, que coloca em Ofra (Juízes 8:24-27). O texto não explica a intenção, mas mostra o resultado: "todo o Israel se prostituiu ali após ela; a estola veio a ser um laço a Gideão e à sua casa" (Juízes 8:27). O homem que derrubou o altar de Baal na própria cidade deixa ali outro objeto de culto.
A terra teve quarenta anos de paz nos dias de Gideão (Juízes 8:28). Ele teve setenta filhos e mais um, Abimeleque, com uma concubina de Siquém (Juízes 8:30-31). O nome significa "meu pai é rei", e essa história continua no próximo capítulo. Assim que Gideão morre, o povo volta aos baalins e põe "Baal-Berite por deus" (Juízes 8:33), esquecido do Senhor e ingrato com a casa de Jerubaal (Juízes 8:34-35). É exatamente o padrão anunciado em Juízes 2:19.
- Juízes 6:1-10: a opressão dos midianitas e o profeta enviado a Israel.
- Juízes 6:11-24: o chamado de Gideão em Ofra e o altar "O Senhor É Paz".
- Juízes 6:25-40: o altar de Baal derrubado, o nome Jerubaal e a prova da lã.
- Juízes 7:1-15: a redução do exército a trezentos e o sonho do pão de cevada.
- Juízes 7:16-25: trombetas, cântaros e tochas; a fuga de Midiã e a morte de Orebe e Zeebe.
- Juízes 8:1-21: Efraim, Sucote e Penuel; a morte de Zeba e Salmuna.
- Juízes 8:22-35: a coroa recusada, a estola de ouro, a morte de Gideão e a volta a Baal.
- Textos relacionados: Êxodo 3:11-12; Êxodo 28:6; Juízes 2:18-19; 1 Samuel 12:11; Salmos 83:11; Isaías 9:4; Hebreus 11:32-34.