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Série Gênesis a Apocalipse Estudo 95 de 99 publicados Ver o mapa da série →

Juízes 6-8: Gideão, o Guerreiro Relutante e os Trezentos

Um homem escondido num lagar é chamado de valente, pede sinais com uma porção de lã e vence um exército com trezentos homens, trombetas e cântaros. Depois, tropeça no ouro.

Um Herói que Começa Escondido

Depois do cântico de Débora, a terra teve quarenta anos de paz. Então o ciclo gira de novo: "Fizeram os filhos de Israel o que era mau perante o Senhor; por isso, o Senhor os entregou nas mãos dos midianitas por sete anos" (Juízes 6:1). Desta vez o inimigo não é um rei com carros de ferro, mas uma onda de nômades que chega todo ano na época da colheita.

A história de Gideão é a mais longa entre as dos juízes até aqui, e uma das mais conhecidas. Ela tem trezentos homens, trombetas e tochas na noite. Mas também tem medo, pedidos de sinais, vingança e um final que deixa um gosto amargo. A pergunta que atravessa os três capítulos é simples: de quem é a vitória?

Gideão malha o trigo escondido num lagar de pedra enquanto o Anjo do Senhor está sentado debaixo de um carvalho

O Valente no Lagar (Juízes 6:1-24)

Os midianitas, os amalequitas e os "povos do Oriente" subiam sempre que Israel semeava. Acampavam, destruíam a colheita e levavam o gado. O texto os compara a uma praga: "vinham como gafanhotos, em tanta multidão, que não se podiam contar, nem a eles nem aos seus camelos" (Juízes 6:5). Os israelitas passaram a viver em covas e cavernas nos montes (Juízes 6:2).

Quando o povo clama, Deus primeiro manda um profeta, que não traz ainda a libertação, mas um diagnóstico. O Senhor lembra o Egito e a terra dada, e conclui: "não temais os deuses dos amorreus, em cuja terra habitais; contudo, não destes ouvidos à minha voz" (Juízes 6:10). O problema de Israel não começava em Midiã.

Então o Anjo do Senhor aparece em Ofra. Gideão está "malhando o trigo no lagar, para o pôr a salvo dos midianitas" (Juízes 6:11). O trigo normalmente era batido numa eira aberta, onde o vento levava a palha. Fazer isso dentro de um lagar, um tanque de pedra para pisar uvas, era trabalhar escondido. É nesse lugar que ele ouve:

O Senhor é contigo, homem valente.

A saudação parece quase irônica. E Gideão responde com uma pergunta honesta: "Se o Senhor é conosco, por que nos sobreveio tudo isto? E que é feito de todas as suas maravilhas que nossos pais nos contaram" (Juízes 6:13). Deus não discute. Apenas o envia: "Vai nessa tua força e livra Israel da mão dos midianitas; porventura, não te enviei eu?" (Juízes 6:14).

Gideão se acha pequeno demais: "a minha família é a mais pobre em Manassés, e eu, o menor na casa de meu pai" (Juízes 6:15). A resposta lembra a que Moisés ouviu na sarça, "Eu serei contigo" (Êxodo 3:12): "Já que eu estou contigo, ferirás os midianitas como se fossem um só homem" (Juízes 6:16). Gideão pede um sinal, prepara uma oferta, e o fogo sobe da pedra e a consome (Juízes 6:21). Assustado por ter visto o Anjo do Senhor face a face, ele ouve "Paz seja contigo! Não temas! Não morrerás!" e constrói ali um altar chamado "O Senhor É Paz" (Juízes 6:23-24).

O Anjo do Senhor
No texto, o "Anjo do Senhor" e o próprio "Senhor" se alternam na mesma conversa: o anjo aparece no versículo 12, e no 14 "se virou o Senhor para ele". O mesmo acontece em outras passagens, como na sarça ardente. Por isso Gideão teme morrer depois de vê-lo. Muitos intérpretes judeus entendem que se trata de um mensageiro que fala com a autoridade de Deus; muitos intérpretes cristãos veem nessas aparições uma manifestação do próprio Deus, e alguns as relacionam ao Filho antes da encarnação.

O Altar de Baal e a Prova da Lã (Juízes 6:25-40)

A primeira missão de Gideão não é contra Midiã, mas dentro de casa. Naquela mesma noite, Deus manda derrubar "o altar de Baal que é de teu pai" e cortar o poste-ídolo ao lado, e construir no lugar um altar ao Senhor (Juízes 6:25-26). Gideão obedece, mas com medo: "não o fez de dia, mas de noite" (Juízes 6:27).

De manhã, os homens da cidade querem matá-lo. Quem o defende é o próprio pai, dono do altar: "Se é deus, que por si mesmo contenda; pois derribaram o seu altar" (Juízes 6:31). Daí vem o apelido de Gideão, Jerubaal, "Baal contenda contra ele" (Juízes 6:32). O nome passa a ser uma lembrança de que Baal não conseguiu se defender.

Quando os inimigos se reúnem no vale de Jezreel, "o Espírito do Senhor revestiu a Gideão" (Juízes 6:34). Ele toca a trombeta e convoca Manassés, Aser, Zebulom e Naftali. Mesmo assim, ainda pede confirmação. Põe uma porção de lã na eira e pede que só ela fique molhada de orvalho. Na manhã seguinte, espreme da lã "uma taça cheia de água" (Juízes 6:38). Depois pede o contrário, com cuidado: "Não se acenda contra mim a tua ira, se ainda falar só esta vez" (Juízes 6:39). E Deus atende de novo (Juízes 6:40).

A lã de Gideão: modelo ou concessão?
A expressão "pôr a lã" virou sinônimo de pedir sinais a Deus antes de uma decisão. Mas os leitores não concordam sobre como entender o episódio. Alguns veem nele um exemplo de fé que busca confirmação e um Deus paciente com quem tem medo. Outros notam que Gideão já tinha a promessa e um sinal de fogo (Juízes 6:16, 21), e que a lã revela mais insegurança do que fé; para esses, Deus atende por bondade, não para criar um método. O texto não aprova nem condena: ele mostra Deus tendo paciência com um homem que ainda tremia.
Ao amanhecer, Gideão espreme o orvalho de uma porção de lã sobre uma taça, na eira seca

Trezentos Homens, Trombetas e Cântaros (Juízes 7)

Gideão acampa junto à fonte de Harode com trinta e dois mil homens. Para Deus, é gente demais, e o motivo é dito claramente:

É demais o povo que está contigo, para eu entregar os midianitas nas suas mãos; Israel poderia se gloriar contra mim, dizendo: A minha própria mão me livrou.

Primeiro voltam para casa os medrosos: vinte e dois mil. Ficam dez mil (Juízes 7:3). Depois vem a prova da água. Os homens descem para beber, e ficam apenas os que "lamberam, levando a mão à boca, trezentos homens" (Juízes 7:6). O texto não explica por que esses foram escolhidos, e muitas explicações sobre "soldados mais atentos" vão além do que está escrito. O ponto da história é o número: com trezentos, ninguém poderia dizer que venceu pela própria força.

Deus ainda dá um último encorajamento. Manda Gideão descer de noite com o servo Pura até o acampamento inimigo, "se ainda temes atacar" (Juízes 7:10). Lá ele ouve um soldado contar um sonho: um pão de cevada rolava contra o arraial e derrubava a tenda. O companheiro interpreta: "Não é isto outra coisa, senão a espada de Gideão" (Juízes 7:14). O pão de cevada era comida de gente pobre. O inimigo já tinha medo de Israel. Gideão adora a Deus ali mesmo (Juízes 7:15).

Como foi a noite da vitória
  • Os trezentos são divididos em três companhias, cada homem com uma trombeta e um cântaro vazio com uma tocha dentro (Juízes 7:16).
  • Eles cercam o arraial logo depois da troca da guarda, "ao princípio da vigília média" (Juízes 7:19).
  • Ao sinal, tocam as trombetas, quebram os cântaros e erguem as tochas, gritando: "Espada pelo Senhor e por Gideão!" (Juízes 7:20).
  • Ninguém avança: "permaneceu cada um no seu lugar ao redor do arraial" (Juízes 7:21).
  • "O Senhor tornou a espada de um contra o outro" (Juízes 7:22), e o exército foge para o Jordão.

A vitória é de Deus, e o texto faz questão de mostrar isso: os trezentos não lutam, só ficam de pé segurando luz e som. Depois, as outras tribos são chamadas para a perseguição, e os homens de Efraim capturam e matam os príncipes Orebe e Zeebe junto ao Jordão (Juízes 7:24-25). Séculos depois, o profeta Isaías ainda lembraria esse dia como modelo de libertação: Deus quebraria o jugo do opressor "como no dia dos midianitas" (Isaías 9:4).


Depois da Vitória (Juízes 8)

O capítulo 8 mostra um Gideão diferente. Com Efraim, que reclama de não ter sido chamado, ele é diplomático e acalma a briga com elogios (Juízes 8:1-3). Mas, ao atravessar o Jordão com os trezentos, "cansados mas ainda perseguindo" (Juízes 8:4), pede pão às cidades de Sucote e Penuel e recebe zombaria. Ele promete voltar, e volta: castiga os anciãos de Sucote com espinhos, derruba a torre de Penuel e mata os homens da cidade (Juízes 8:16-17). Os alvos agora são israelitas.

Ele captura os reis Zeba e Salmuna e descobre que eles tinham matado seus irmãos no Tabor. A guerra de Deus vira também uma vingança de família: "se os tivésseis deixado com vida, eu não vos mataria a vós outros" (Juízes 8:19). Gideão manda o filho Jéter, ainda menino, executar os reis; o garoto tem medo, e o próprio Gideão os mata (Juízes 8:20-21).

Então o povo lhe oferece a coroa, uma dinastia inteira. A resposta de Gideão é uma das frases mais bonitas do livro:

Não dominarei sobre vós, nem tampouco meu filho dominará sobre vós; o Senhor vos dominará.

Mas, logo em seguida, ele pede as argolas de ouro do despojo. Junta mil e setecentos siclos de ouro e faz com eles uma estola sacerdotal, que coloca em Ofra (Juízes 8:24-27). O texto não explica a intenção, mas mostra o resultado: "todo o Israel se prostituiu ali após ela; a estola veio a ser um laço a Gideão e à sua casa" (Juízes 8:27). O homem que derrubou o altar de Baal na própria cidade deixa ali outro objeto de culto.

O que era a estola sacerdotal?
A estola, ou éfode, era uma veste do sumo sacerdote, feita "de ouro, e estofo azul, e púrpura, e carmesim, e linho fino" (Êxodo 28:6), ligada ao serviço no santuário e à consulta a Deus. Não se sabe ao certo que forma tinha a estola de Gideão: alguns pensam numa veste, outros num objeto de ouro usado para pedir oráculos. Em qualquer caso, ela criava em Ofra um centro de culto fora do lugar que Deus tinha escolhido, e o povo passou a venerá-la.

A terra teve quarenta anos de paz nos dias de Gideão (Juízes 8:28). Ele teve setenta filhos e mais um, Abimeleque, com uma concubina de Siquém (Juízes 8:30-31). O nome significa "meu pai é rei", e essa história continua no próximo capítulo. Assim que Gideão morre, o povo volta aos baalins e põe "Baal-Berite por deus" (Juízes 8:33), esquecido do Senhor e ingrato com a casa de Jerubaal (Juízes 8:34-35). É exatamente o padrão anunciado em Juízes 2:19.

Conclusão: a força que não é nossa
Gideão começa escondido num lagar e termina recusando uma coroa, mas fazendo um ídolo de ouro. No meio, Deus faz questão de reduzir o exército até que a vitória só pudesse ser dele. A carta aos Hebreus o coloca entre os que "da fraqueza tiraram força" (Hebreus 11:34), e isso é verdade: o melhor momento de Gideão é quando ele tem pouco e depende de Deus. O perigo vem depois, com o ouro, o prestígio e a vontade de deixar uma marca. A pergunta que a história deixa é se conseguimos continuar dependendo de Deus quando já não somos fracos.
Referências Bíblicas
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