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Série Gênesis a Apocalipse Estudo 98 de 99 publicados Ver o mapa da série →

Juízes 13-16: Sansão, Força, Fraqueza e Redenção

Um nazireu anunciado por um anjo recebe força extraordinária e a desperdiça entre enigmas, vinganças e Dalila. Cego e preso, ele ora uma última vez.

O Juiz Mais Forte e Mais Sozinho

Depois de Jefté e dos três juízes que vieram depois dele, o ciclo de Juízes gira mais uma vez: "Tendo os filhos de Israel tornado a fazer o que era mau perante o Senhor, este os entregou nas mãos dos filisteus por quarenta anos" (Juízes 13:1). Desta vez há algo diferente. O texto não diz que Israel clamou. O povo parece ter se acostumado com o domínio filisteu.

Sansão é o último juiz do livro e o mais famoso. Nenhum outro tem um nascimento anunciado por um anjo, e nenhum tem uma força tão extraordinária. Mas também nenhum é tão desobediente, impulsivo e sozinho. Ele nunca lidera um exército, nunca reúne as tribos. A sua história é a de um homem com um chamado enorme que vive como se o chamado fosse só seu. Como Deus usa alguém assim?

Manoá e sua mulher caem com o rosto em terra enquanto o Anjo do Senhor sobe na chama do altar

Um Nazireu Anunciado (Juízes 13)

A história começa com uma família de Zorá, da tribo de Dã. A mulher de Manoá era estéril, como Sara, Rebeca e Raquel antes dela. O Anjo do Senhor lhe aparece e anuncia um filho com uma condição especial:

Porque eis que tu conceberás e darás à luz um filho sobre cuja cabeça não passará navalha; porquanto o menino será nazireu consagrado a Deus desde o ventre de sua mãe; e ele começará a livrar a Israel do poder dos filisteus.

Repare no verbo: ele "começará" a livrar Israel. A libertação completa dos filisteus só virá muito depois, nos dias de Samuel e de Davi. Sansão será um começo.

Manoá pede que o mensageiro volte para ensinar como criar o menino, e Deus atende (Juízes 13:8-9). Quando Manoá pergunta o nome dele, ouve: "Por que perguntas assim pelo meu nome, que é maravilhoso?" (Juízes 13:18). Manoá oferece um cabrito sobre uma rocha, e "subindo para o céu a chama que saiu do altar, o Anjo do Senhor subiu nela" (Juízes 13:20). Manoá se apavora: "Certamente, morreremos, porque vimos a Deus" (Juízes 13:22). Quem tem bom senso é a mulher: se Deus quisesse matá-los, não teria aceitado a oferta nem revelado tudo aquilo (Juízes 13:23). O menino nasce, recebe o nome de Sansão, "e o Senhor o abençoou" (Juízes 13:24).

O voto de nazireu
A Lei previa que qualquer israelita, homem ou mulher, podia fazer por um tempo "o voto de nazireu, a fim de consagrar-se para o Senhor" (Números 6:2). Havia três sinais: não beber vinho nem comer nada da videira, não cortar o cabelo e não tocar em cadáver (Números 6:3-6). O caso de Sansão é diferente: ele não escolhe o voto, é consagrado antes de nascer e para a vida toda (Juízes 13:7). Samuel também seria dedicado assim pela mãe (1 Samuel 1:11). O cabelo era o sinal visível de uma consagração que envolvia a vida inteira.

Leão, Mel e Enigma (Juízes 14)

A primeira coisa que Sansão faz adulto é escolher uma esposa filisteia em Timna. Os pais protestam, e ele insiste: "Toma-me esta, porque só desta me agrado" (Juízes 14:3). O texto acrescenta algo surpreendente: os pais "não sabiam que isto vinha do Senhor, pois este procurava ocasião contra os filisteus" (Juízes 14:4). Deus vai usar até as escolhas erradas de Sansão para cumprir o seu propósito, o que não torna essas escolhas certas.

No caminho, um leão o ataca, e "o Espírito do Senhor de tal maneira se apossou dele, que ele o rasgou como quem rasga um cabrito" (Juízes 14:6). Dias depois, Sansão encontra abelhas e mel no corpo do leão, come e dá aos pais, sem dizer de onde veio (Juízes 14:8-9). Para um nazireu, que não devia tocar em cadáver, o gesto é revelador. Ele trata a consagração com descuido.

Na festa de casamento, Sansão propõe um enigma a trinta filisteus, com aposta de trinta roupas: "Do comedor saiu comida, e do forte saiu doçura" (Juízes 14:14). Sem resposta, eles ameaçam queimar a noiva e a família dela. Ela chora sete dias até arrancar a solução, e os convidados respondem: "Que coisa há mais doce do que o mel e mais forte do que o leão?" (Juízes 14:18). Furioso, Sansão mata trinta homens em Asquelom para pagar a aposta e volta para casa. A esposa é dada a outro (Juízes 14:19-20).


Vingança em Cadeia (Juízes 15)

O capítulo 15 é uma espiral de vingança. Sansão volta para buscar a mulher e descobre que ela foi dada ao companheiro. Para se vingar, amarra trezentas raposas cauda com cauda, prende tochas entre elas e queima as plantações, as vinhas e os olivais dos filisteus (Juízes 15:4-5). Os filisteus respondem queimando a mulher e o pai dela (Juízes 15:6). Sansão responde com "grande carnificina" (Juízes 15:8). Cada lado diz o mesmo: fiz com eles o que fizeram comigo (Juízes 15:10-11).

O detalhe mais triste vem de Israel. Três mil homens de Judá descem até a rocha de Etã, não para lutar ao lado de Sansão, mas para entregá-lo: "Não sabias tu que os filisteus dominam sobre nós?" (Juízes 15:11). O povo prefere a servidão tranquila ao risco da liberdade. Sansão se deixa amarrar com cordas novas.

Em Leí, quando os filisteus vêm ao encontro dele gritando, "o Espírito do Senhor de tal maneira se apossou dele, que as cordas que tinha nos braços se tornaram como fios de linho queimados" (Juízes 15:14). Com uma queixada de jumento ainda fresca, ele mata mil homens (Juízes 15:15). Depois, com muita sede, Sansão ora pela primeira vez na história: "Por intermédio do teu servo deste esta grande salvação; morrerei eu, agora, de sede…?" (Juízes 15:18). Deus abre uma fonte na rocha, e o lugar passa a se chamar En-Hacoré, "a fonte do que clama" (Juízes 15:19). Sansão julgou Israel vinte anos (Juízes 15:20).

Os filisteus
Os filisteus ocupavam a planície do litoral sul, em cinco cidades principais: Gaza, Asquelom, Asdode, Ecrom e Gate. Muitos historiadores os associam aos "povos do mar", grupos vindos do mundo egeu que se estabeleceram na costa de Canaã. Diferente dos israelitas, eles não praticavam a circuncisão, por isso o texto os chama de "incircuncisos" (Juízes 14:3; 15:18). Eram uma potência militar organizada e, por muito tempo, a maior ameaça a Israel, até os dias de Davi.

Dalila e as Colunas de Dagom (Juízes 16)

O capítulo 16 mostra Sansão cada vez mais próximo do fim. Em Gaza, ele passa a noite com uma prostituta. Os gazitas o esperam na porta da cidade, mas, à meia-noite, ele arranca as folhas da porta com as ombreiras e a tranca e as carrega até um monte em direção a Hebrom (Juízes 16:1-3). A força continua. O caráter não melhora.

Então ele se apaixona por Dalila, do vale de Soreque. Os príncipes filisteus oferecem a ela "cada um mil e cem siclos de prata" para descobrir o segredo da força dele (Juízes 16:5). O que segue parece uma brincadeira perigosa. Três vezes Dalila pergunta, três vezes Sansão mente, e três vezes ela tenta entregá-lo, gritando: "Os filisteus vêm sobre ti, Sansão!" (Juízes 16:9, 12, 14). Ele parece não ver o que está claro para qualquer leitor.

Sansão dorme com a cabeça nos joelhos de Dalila enquanto um homem corta as sete tranças do seu cabelo

Ela insiste todos os dias, até que "apoderou-se da alma dele uma impaciência de matar" (Juízes 16:16), e ele conta tudo: "Nunca subiu navalha à minha cabeça, porque sou nazireu de Deus, desde o ventre de minha mãe" (Juízes 16:17). Dalila o faz dormir no colo, chama um homem para rapar as sete tranças, e grita mais uma vez. Sansão acorda pensando que tudo seria como antes:

Tendo ele despertado do seu sono, disse consigo mesmo: Sairei ainda esta vez como dantes e me livrarei; porque ele não sabia ainda que já o Senhor se tinha retirado dele.

A força nunca esteve no cabelo em si. O cabelo era o último sinal que restava da consagração. Quando até ele se foi, o texto diz o que realmente aconteceu: o Senhor tinha se retirado. Os filisteus vazam os olhos de Sansão, prendem-no com correntes de bronze e o põem para virar um moinho na prisão de Gaza (Juízes 16:21). O homem que se guiava pelo que via termina cego. Mas o versículo seguinte traz uma pequena esperança: "o cabelo da sua cabeça, logo após ser rapado, começou a crescer de novo" (Juízes 16:22).

Os filisteus fazem uma grande festa ao seu deus Dagom, dizendo: "Nosso deus nos entregou nas mãos a Sansão, nosso inimigo" (Juízes 16:23). A disputa agora não é entre Sansão e os filisteus, mas entre o Senhor e Dagom. Trazem Sansão para diverti-los e o põem entre as colunas do templo. Ele pede ao menino que o guia para tocar as colunas, e ora:

Senhor Deus, peço-te que te lembres de mim, e dá-me força só esta vez, ó Deus, para que me vingue dos filisteus, ao menos por um dos meus olhos.

Até nessa última oração há uma mistura: ele pede que Deus se lembre dele, mas o motivo ainda é vingança pessoal. Deus responde mesmo assim. Sansão empurra as duas colunas do meio, dizendo "Morra eu com os filisteus", e o templo desaba sobre os príncipes e o povo, "e foram mais os que matou na sua morte do que os que matara na sua vida" (Juízes 16:29-30). A família o sepulta entre Zorá e Estaol, onde o Espírito tinha começado a agir nele (Juízes 16:31; 13:25).

Sansão entre os heróis da fé
Parece estranho, mas a carta aos Hebreus coloca Sansão entre os que agiram "por meio da fé" (Hebreus 11:32-33). Muitos leitores entendem que a lista não elogia o caráter de cada um, mas a confiança em Deus nos momentos decisivos, como no clamor por água em Leí e na oração final em Gaza. Intérpretes cristãos também notam paralelos e contrastes com Jesus: um nascimento anunciado por um anjo, um libertador entregue pelos seus aos inimigos, uma vitória alcançada na própria morte. A diferença é grande: Sansão morre pedindo vingança, e Jesus morre pedindo perdão pelos que o matavam (Lucas 23:34). Por isso muitos veem em Sansão mais um sinal da necessidade de um libertador melhor do que um modelo a imitar.
Conclusão: a força que vem de Deus
Sansão tinha tudo: um nascimento anunciado, pais que buscaram a Deus, a força do Espírito do Senhor. E desperdiçou boa parte disso brincando com aquilo que era sagrado, até o dia em que acordou sem saber que Deus já não estava com ele. A sua história alerta para o perigo de tratar os dons de Deus como se fossem nossos e de achar que sempre haverá uma próxima vez. Mas ela também mostra a graça: o cabelo volta a crescer, e Deus ouve a oração de um homem cego, humilhado e no fim da linha. Nunca é tarde para clamar: "lembra-te de mim".
Referências Bíblicas
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