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Série Gênesis a Apocalipse Estudo 103 de 104 publicados Ver o mapa da série →

I Samuel 1-3: Ana, o Menino Samuel e o Chamado de Deus

Uma mulher estéril derrama a alma diante de Deus em Siló e entrega o filho que pediu. Enquanto os sacerdotes se corrompem, um menino aprende a ouvir a voz do Senhor.

Um Novo Começo a Partir de uma Oração

O livro de Rute terminou com o nome de Davi. Os livros de Samuel vão contar como Israel passou dos juízes aos reis, e como Davi chegou ao trono. Mas a história não começa num palácio nem num campo de batalha. Começa com uma mulher chorando no santuário de Siló.

O período ainda é o dos juízes, e os sinais de crise continuam. Os sacerdotes que deveriam cuidar do culto são corruptos, e "a palavra do Senhor era mui rara" (1 Samuel 3:1). Os três primeiros capítulos mostram Deus preparando uma mudança: ele ouve a oração de Ana, levanta um menino fiel e começa a falar de novo. Como Deus recomeça a sua obra num tempo assim?

Ana ora em silêncio e chorando diante do santuário de Siló, enquanto o sacerdote Eli a observa sentado junto a um pilar

A Oração de Ana (1 Samuel 1:1-18)

Elcana, de Ramataim-Zofim, tinha duas mulheres: "Penina tinha filhos; Ana, porém, não os tinha" (1 Samuel 1:2). Todo ano a família subia a Siló, onde estava o santuário. Elcana amava Ana e lhe dava porção dupla da oferta, mas Penina a provocava "excessivamente para a irritar" (1 Samuel 1:6). A cena se repetia ano após ano, e Ana chorava e não comia (1 Samuel 1:7).

O marido tenta consolá-la com carinho, mas sem entender muito: "Não te sou eu melhor do que dez filhos?" (1 Samuel 1:8). Ana então se levanta e leva a dor a quem podia fazer algo. "Com amargura de alma, orou ao Senhor, e chorou abundantemente" (1 Samuel 1:10). E faz um voto:

Senhor dos Exércitos, se benignamente atentares para a aflição da tua serva, e de mim te lembrares, e da tua serva te não esqueceres, e lhe deres um filho varão, ao Senhor o darei por todos os dias da sua vida, e sobre a sua cabeça não passará navalha.

O sacerdote Eli, sentado junto a um pilar, vê os lábios dela se movendo sem som e conclui que está bêbada (1 Samuel 1:12-14). A resposta de Ana é firme e humilde: "não bebi nem vinho nem bebida forte; porém venho derramando a minha alma perante o Senhor" (1 Samuel 1:15). Eli percebe o engano e a abençoa: "Vai-te em paz, e o Deus de Israel te conceda a petição que lhe fizeste" (1 Samuel 1:17). Ana vai embora, come, "e o seu semblante já não era triste" (1 Samuel 1:18). Nada tinha mudado ainda por fora, mas ela tinha entregado o peso a Deus.

Siló e a esterilidade
Siló, na região montanhosa de Efraim, abrigava a tenda da congregação e a arca desde os dias de Josué; era o principal lugar de culto de Israel. No mundo antigo, não ter filhos era motivo de grande sofrimento e, muitas vezes, de vergonha pública para a mulher, como já se via em Raquel: "Dá-me filhos, senão morrerei" (Gênesis 30:1). A Bíblia volta várias vezes ao tema da mulher estéril que recebe um filho de Deus: Sara, Rebeca, Raquel, a mãe de Sansão e agora Ana. Em todas, o filho nasce como dom, não como conquista.

Um Filho Pedido e Devolvido (1 Samuel 1:19-2:11)

"Lembrando-se dela o Senhor" (1 Samuel 1:19), Ana concebe e dá à luz um filho, a quem chama Samuel, "pois dizia: Do Senhor o pedi" (1 Samuel 1:20). E ela cumpre o voto. Depois de desmamar o menino, o leva a Siló com um novilho, farinha e vinho, e o entrega a Eli (1 Samuel 1:24-25):

Por este menino orava eu; e o Senhor me concedeu a petição que eu lhe fizera. Pelo que também o trago como devolvido ao Senhor, por todos os dias que viver; pois do Senhor o pedi.

O contraste com Jefté, no livro de Juízes, é grande (Juízes 11:30-31). Jefté fez um voto precipitado tentando garantir uma vitória. Ana faz um voto consciente e entrega com gratidão o que recebeu. E, em vez de chorar, ela canta.

Ana entrega o menino Samuel ao sacerdote Eli em Siló, com Elcana trazendo um novilho, farinha e vinho

O cântico de Ana (1 Samuel 2:1-10) é um dos grandes poemas da Bíblia. Ele vai muito além da experiência pessoal dela e fala do jeito de Deus agir no mundo: "O arco dos fortes é quebrado, porém os débeis, cingidos de força" (1 Samuel 2:4). Deus inverte as posições: "O Senhor empobrece e enriquece; abaixa e também exalta. Levanta o pobre do pó" (1 Samuel 2:7-8). E o cântico termina com uma palavra surpreendente para uma época sem reis: o Senhor "dá força ao seu rei e exalta o poder do seu ungido" (1 Samuel 2:10).

De Ana a Maria
Muitos leitores notam a semelhança entre o cântico de Ana e o cântico de Maria em Lucas: "Derribou do seu trono os poderosos e exaltou os humildes. Encheu de bens os famintos e despediu vazios os ricos" (Lucas 1:52-53). As duas mulheres celebram um Deus que levanta os pequenos. E a menção ao "ungido", em hebraico mashiach, de onde vem a palavra Messias, faz muitos intérpretes cristãos lerem o cântico como uma primeira janela para o Rei que Deus enviaria. No contexto imediato, ele aponta para os reis de Israel que Samuel ungiria, Saul e Davi.

Dois Filhos de Eli e um Menino Fiel (1 Samuel 2:12-36)

Logo depois do cântico, o texto mostra o outro lado de Siló. Os filhos de Eli, Hofni e Fineias, eram sacerdotes, mas "eram, porém, os filhos de Eli filhos de Belial e não se importavam com o Senhor" (1 Samuel 2:12). Eles tomavam à força a carne das ofertas antes que a gordura fosse queimada para Deus (1 Samuel 2:13-16) e se deitavam com as mulheres que serviam à porta da tenda (1 Samuel 2:22). "Era, pois, mui grande o pecado destes moços perante o Senhor, porquanto eles desprezavam a oferta do Senhor" (1 Samuel 2:17).

O narrador alterna essas cenas com frases curtas sobre Samuel, como se fossem pequenas luzes no escuro. "Samuel ministrava perante o Senhor, sendo ainda menino" (1 Samuel 2:18). Ana lhe fazia todo ano uma túnica pequena (1 Samuel 2:19). "O jovem Samuel crescia em estatura e no favor do Senhor e dos homens" (1 Samuel 2:26). Deus também abençoa Ana com mais três filhos e duas filhas (1 Samuel 2:21).

Eli repreende os filhos, mas fraco e tarde demais, e eles não ouvem (1 Samuel 2:23-25). Então um homem de Deus traz uma palavra dura: Eli honrou os filhos mais do que a Deus. O princípio é dito com clareza: "aos que me honram, honrarei, porém os que me desprezam serão desmerecidos" (1 Samuel 2:30). Hofni e Fineias morrerão no mesmo dia, e Deus levantará "um sacerdote fiel, que procederá segundo o que tenho no coração e na mente" (1 Samuel 2:34-35).


"Fala, Senhor, Porque o Teu Servo Ouve" (1 Samuel 3)

"Naqueles dias, a palavra do Senhor era mui rara; as visões não eram frequentes" (1 Samuel 3:1). Eli está quase cego, e o detalhe tem algo de simbólico. Samuel dorme no santuário, perto da arca, "antes que a lâmpada de Deus se apagasse" (1 Samuel 3:3). A lâmpada ainda acesa é como a esperança que resta.

Deus chama: "Samuel, Samuel!" O menino corre até Eli achando que foi ele. Isso acontece três vezes, porque "Samuel ainda não conhecia o Senhor, e ainda não lhe tinha sido manifestada a palavra do Senhor" (1 Samuel 3:7). Na terceira vez, Eli entende e ensina ao menino a resposta certa (1 Samuel 3:8-9). Deus chama de novo, e Samuel responde:

Então, veio o Senhor, e ali esteve, e chamou como das outras vezes: Samuel, Samuel! Este respondeu: Fala, porque o teu servo ouve.

A primeira mensagem que Samuel recebe é pesada: o juízo sobre a casa de Eli vai se cumprir, "porque seus filhos se fizeram execráveis, e ele os não repreendeu" (1 Samuel 3:13). De manhã, Samuel tem medo de contar. Eli insiste, e o menino conta tudo, sem esconder nada. A resposta de Eli mostra um homem fraco, mas que ainda reconhece a Deus: "É o Senhor; faça o que bem lhe aprouver" (1 Samuel 3:18).

O capítulo termina com uma mudança completa de cenário. Samuel cresce, "e o Senhor era com ele, e nenhuma de todas as suas palavras deixou cair em terra" (1 Samuel 3:19). Todo o Israel, "desde Dã até Berseba", reconhece que ele é profeta (1 Samuel 3:20). A palavra que era rara volta a ser ouvida em Siló (1 Samuel 3:21).

Conclusão: oração, entrega e escuta
1 Samuel 1-3 começa com uma mulher que derrama a alma diante de Deus e termina com um menino que aprende a ouvir a voz dele. No meio, sacerdotes que tinham tudo para servir bem desprezam o que é sagrado. A diferença não está no cargo, mas no coração. Ana nos ensina a levar a dor a Deus com sinceridade e a devolver a ele com gratidão o que recebemos. Samuel nos ensina a postura de quem quer ouvir: "Fala, porque o teu servo ouve". Em tempos em que a palavra de Deus parece rara, a pergunta é se estamos dispostos a escutá-la, mesmo quando ela é difícil.
Referências Bíblicas
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