Pular para o conteúdo
Versão ASV
×

Escolha a tradução:

Série Gênesis a Apocalipse Estudo 109 de 109 publicados Ver o mapa da série →

I Samuel 21-24: Davi Fugitivo e a Vida de Saul Poupada

Sem casa, sem armas e sem posição, Davi foge de Saul e reúne gente aflita numa caverna. Em En-Gedi, tem o rei nas mãos e escolhe não fazer justiça com as próprias mãos.

O Rei Ungido Vive como Fugitivo

No estudo anterior, Davi e Jônatas se despediram no campo, e Davi partiu sabendo que Saul queria matá-lo (1 Samuel 20:42). A partir daqui, o homem que Samuel ungiu como rei passa anos sem casa, sem posição e sem segurança, fugindo de cidade em cidade e de caverna em caverna.

Os capítulos 21 a 24 mostram Davi nos seus momentos mais frágeis: mentindo, fingindo loucura, causando sem querer uma tragédia. Mas também mostram um líder que se forma no deserto, que consulta a Deus antes de agir e que, quando tem o inimigo nas mãos, se recusa a fazer justiça com as próprias mãos. O que Deus ensina a alguém antes de entregar-lhe um trono?

Na caverna de Adulão, homens aflitos, endividados e amargurados se reúnem em torno de Davi

Pão Sagrado e uma Espada Conhecida (1 Samuel 21)

A primeira parada de Davi é Nobe, cidade dos sacerdotes. Aimeleque o recebe "tremendo" e estranha que ele venha sozinho (1 Samuel 21:1). Davi inventa que está numa missão secreta do rei e pede pão. O sacerdote só tem os pães sagrados, os pães da proposição, que ficavam diante do Senhor e eram trocados toda semana (1 Samuel 21:4-6). Ele os entrega a Davi, depois de perguntar se os homens estavam cerimonialmente puros. Davi também pede uma arma, e Aimeleque lhe dá a espada de Golias: "Não há outra semelhante; dá-ma" (1 Samuel 21:9).

Um detalhe parece solto, mas é decisivo: estava ali Doegue, o edomita, chefe dos pastores de Saul (1 Samuel 21:7).

Em Nobe, o sacerdote Aimeleque entrega a Davi os pães sagrados e a espada de Golias envolta num pano
Os pães da proposição
Eram doze pães colocados em duas fileiras sobre a mesa de ouro do santuário, "perante o Senhor", e renovados a cada sábado. Os pães retirados eram dos sacerdotes, que os comiam "no lugar santo" (Levítico 24:5-9). Séculos depois, Jesus usou este episódio para responder aos fariseus que criticavam os seus discípulos: Davi e os seus companheiros "comeram os pães da proposição, os quais não lhes era lícito comer" (Mateus 12:3-4). O argumento de Jesus era que a necessidade humana e a misericórdia têm lugar diante da Lei.

De Nobe, Davi foge para o lugar mais improvável: Gate, a cidade de Golias. Os servos do rei Aquis o reconhecem e lembram o refrão: "Saul feriu os seus milhares, porém Davi, os seus dez milhares" (1 Samuel 21:11). Davi tem medo e finge loucura, rabiscando nas portas e deixando a saliva escorrer pela barba (1 Samuel 21:13). Aquis o expulsa com ironia: "Faltam-me a mim doidos?" (1 Samuel 21:15). O herói de Israel se humilha para sobreviver. O título do Salmo 34 liga esse salmo de louvor a este episódio.


A Caverna de Adulão e o Massacre de Nobe (1 Samuel 22)

Davi se esconde na caverna de Adulão. Ali chegam a família dele e uma multidão diferente de qualquer exército: "todos os homens que se achavam em aperto, e todo homem endividado, e todos os amargurados de espírito, e ele se fez chefe deles; e eram com ele uns quatrocentos homens" (1 Samuel 22:2). O futuro rei de Israel começa liderando os que ninguém mais queria. Por segurança, ele deixa os pais com o rei de Moabe, terra da sua bisavó Rute (1 Samuel 22:3-4). O profeta Gade o manda voltar para Judá (1 Samuel 22:5).

Enquanto isso, Saul está sentado debaixo de uma árvore em Gibeá, com a lança na mão, acusando os próprios servos de conspirar com Davi (1 Samuel 22:6-8). Doegue conta o que viu em Nobe. Saul chama Aimeleque e todos os sacerdotes. Aimeleque defende Davi com honestidade: "quem, entre todos os teus servos, há tão fiel como Davi, o genro do rei?" (1 Samuel 22:14). Saul o condena à morte com toda a família.

Os guardas de Saul se recusam a matar "os sacerdotes do Senhor" (1 Samuel 22:17). Mas Doegue, o estrangeiro, obedece. Mata oitenta e cinco sacerdotes e depois destrói a cidade de Nobe inteira (1 Samuel 22:18-19). Saul, que não quis destruir Amaleque como Deus mandou, destrói uma cidade de sacerdotes de Israel. Só um escapa, Abiatar, que foge para Davi. A resposta de Davi é de quem assume a culpa: "Fui a causa da morte de todas as pessoas da casa de teu pai… Fica comigo, não temas" (1 Samuel 22:22-23).

A casa de Eli
Aimeleque era bisneto de Eli, da família de sacerdotes que servia em Siló. Anos antes, um homem de Deus tinha avisado Eli de que a sua casa seria cortada e que os descendentes morreriam "na flor da idade" (1 Samuel 2:31-33). O massacre de Nobe é visto por muitos intérpretes como parte do cumprimento dessa palavra. Isso não diminui a culpa de Saul e de Doegue, mas mostra que, mesmo no meio da violência humana, a história continua sob o governo de Deus.

Davi Consulta o Senhor (1 Samuel 23)

Mesmo fugitivo, Davi age como o rei que Israel precisava. Os filisteus atacam Queila, uma cidade de Judá. Davi pergunta ao Senhor se deve ir, e os seus homens têm medo. Ele pergunta de novo, recebe a confirmação e salva a cidade (1 Samuel 23:1-5). Saul, que deveria proteger Queila, só pensa em aproveitar a chance para cercar Davi lá dentro (1 Samuel 23:7-8). Davi consulta a Deus por meio da estola sacerdotal trazida por Abiatar e descobre que os moradores o entregariam. Ele sai a tempo (1 Samuel 23:9-13).

No deserto de Zife, "Saul buscava-o todos os dias, porém Deus não o entregou nas suas mãos" (1 Samuel 23:14). E ali acontece um dos encontros mais bonitos do livro: Jônatas vai até Davi em Horesa "e lhe fortaleceu a confiança em Deus" (1 Samuel 23:16).

Não temas, porque a mão de Saul, meu pai, não te achará; porém tu reinarás sobre Israel, e eu serei contigo o segundo, o que também Saul, meu pai, bem sabe.

Será a última vez que os dois amigos se veem. Logo depois, os zifeus traem Davi e Saul o cerca no deserto de Maom. Saul vai de um lado do monte e Davi do outro, quase capturado, quando chega um mensageiro: os filisteus invadiram a terra. Saul desiste, e o lugar passa a se chamar "Pedra de Escape" (1 Samuel 23:26-28).


A Caverna de En-Gedi (1 Samuel 24)

Saul volta à caça com três mil homens escolhidos. Entra sozinho numa caverna para fazer as necessidades, sem saber que Davi e os seus homens estão escondidos lá no fundo (1 Samuel 24:2-3). Os homens de Davi veem ali a mão de Deus: "Hoje é o dia do qual o Senhor te disse: Eis que te entrego nas mãos o teu inimigo" (1 Samuel 24:4). Davi se aproxima em silêncio e corta apenas a orla do manto de Saul.

Mesmo isso pesa na consciência de Davi: "sentiu Davi bater-lhe o coração, por ter cortado a orla do manto de Saul" (1 Samuel 24:5). Ele segura os seus homens com uma frase que vai repetir a vida inteira:

O Senhor me guarde de que eu faça tal coisa ao meu senhor, isto é, que eu estenda a mão contra ele, pois é o ungido do Senhor.

Quando Saul sai, Davi grita atrás dele, se inclina até o chão e mostra o pedaço do manto: "Olha, pois, meu pai, vê aqui a orla do teu manto na minha mão… reconhece e vê que não há em mim nem mal nem rebeldia" (1 Samuel 24:11). E entrega a causa a Deus: "Julgue o Senhor entre mim e ti e vingue-me o Senhor a teu respeito; porém a minha mão não será contra ti" (1 Samuel 24:12). Davi se compara a "um cão morto" e a "uma pulga" (1 Samuel 24:14): não vale a pena o rei de Israel gastar a vida caçando-o.

Saul chora em voz alta. Por um momento, volta a ver com clareza: "Mais justo és do que eu; pois tu me recompensaste com bem, e eu te paguei com mal" (1 Samuel 24:17). E admite: "tenho certeza de que serás rei" (1 Samuel 24:20). Pede apenas que Davi não destrua a sua descendência, e Davi jura (1 Samuel 24:21-22). Mas Saul volta para casa, e Davi, prudente, volta para o lugar seguro.

Esperar o tempo de Deus
A tentação de Davi era real: ele já tinha sido ungido, Saul era injusto, e a oportunidade parecia vinda de Deus. Mas Davi entendeu que o trono que recebesse matando o rei não seria um presente de Deus. A tradição associa a este período os salmos escritos "na caverna", como o Salmo 57, "à sombra das tuas asas me abrigo, até que passem as calamidades" (Salmos 57:1), e o 142, "tu és o meu refúgio" (Salmos 142:5). Muitos leitores cristãos veem aqui o mesmo princípio que Paulo ensinaria: "não vos vingueis a vós mesmos… A mim me pertence a vingança" (Romanos 12:19).
Conclusão: formado no deserto
Davi não chegou ao trono pelo caminho mais rápido. Passou por mentiras e medo em Nobe e em Gate, carregou a culpa pela morte dos sacerdotes, liderou gente endividada e amargurada numa caverna, foi traído por quem ele tinha salvado. Mas, no deserto, aprendeu a consultar a Deus, a ser fortalecido pelos amigos e a esperar o tempo certo. Quando teve o inimigo nas mãos, não tomou a justiça para si. Muitas vezes também passamos por desertos em que o que Deus prometeu parece longe. A história de Davi nos convida a não forçar as portas, mas a confiar que o Senhor julga entre nós e quem nos fere.
Referências Bíblicas
Encontrou algum erro neste conteúdo?
O que está errado?

Não pedimos nome nem e-mail. Veja a política editorial.

Busca Rápida de Livros da Bíblia

Buscar livro da Bíblia