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I Samuel 27-31: A Médium de En-Dor e a Morte de Saul
Davi se refugia entre os filisteus e Saul, sem resposta de Deus, procura uma médium. Enquanto Davi se reanima no Senhor em Ziclague, Saul cai no monte Gilboa.
Dois Reis na Noite Mais Escura
No estudo anterior, Davi poupou Saul pela segunda vez, levou a lança e a bilha do rei e se despediu dele no deserto de Zife (1 Samuel 26:25). Saul o abençoou, mas Davi não acreditou que a paz fosse durar. Os capítulos 27 a 31 fecham o primeiro livro de Samuel acompanhando os dois homens em paralelo, cada um no seu pior momento.
Davi vai morar entre os inimigos de Israel e quase acaba lutando contra o próprio povo. Saul, sem resposta de Deus, procura às escondidas uma médium que ele mesmo tinha proibido. Os dois chegam ao fundo do poço quase ao mesmo tempo. O que separa um do outro é para onde cada um corre quando tudo desaba.

Davi Entre os Filisteus (1 Samuel 27)
O capítulo começa com Davi falando consigo mesmo: "Pode ser que algum dia venha eu a perecer nas mãos de Saul" (1 Samuel 27:1). Desta vez ele não consulta a Deus. Decide sozinho e passa com seiscentos homens e suas famílias para Gate, a cidade de Aquis, rei filisteu (1 Samuel 27:2-3). O plano funciona: Saul desiste de persegui-lo (1 Samuel 27:4).
Davi pede uma cidade no interior e recebe Ziclague, onde vive um ano e quatro meses (1 Samuel 27:6-7). Dali ele ataca os gesuritas, os gersitas e os amalequitas, povos do deserto do sul que eram inimigos antigos de Israel (1 Samuel 27:8). Mas, quando Aquis pergunta onde ele andou, Davi responde que atacou o sul de Judá (1 Samuel 27:10). Para que ninguém conte a verdade, não deixa sobreviventes (1 Samuel 27:11).
O narrador conta isso sem comentar, e o resultado é exatamente o que Davi queria: "Aquis confiava em Davi" (1 Samuel 27:12). O rei filisteu acredita que Davi se tornou odiado pelo próprio povo e que lhe servirá para sempre. O futuro rei de Israel vive de enganar o seu protetor, numa situação cada vez mais difícil de sustentar.
Saul na Casa da Médium (1 Samuel 28)
Os filisteus reúnem os exércitos para a guerra, e Aquis avisa Davi: "comigo sairás à peleja, tu e os teus homens" (1 Samuel 28:1). Davi responde com uma frase ambígua, e a história o deixa ali, preso na própria armadilha, enquanto a câmera se volta para Saul.
O texto lembra dois fatos: Samuel estava morto, e Saul tinha expulsado da terra os médiuns e os adivinhos (1 Samuel 28:3). Diante do acampamento filisteu em Suném, Saul treme de medo (1 Samuel 28:5). Ele busca o Senhor, "porém o Senhor não lhe respondeu, nem por sonhos, nem por Urim, nem por profetas" (1 Samuel 28:6). Então faz o que a Lei proibia: manda procurar uma médium e a encontra em En-Dor.
Saul se disfarça e vai de noite (1 Samuel 28:8). Quando a mulher teme uma armadilha, ele chega a jurar "pelo Senhor" que nada lhe acontecerá por praticar o que o Senhor proibiu (1 Samuel 28:10). Ele pede Samuel. A mulher grita, reconhece o rei e diz que vê "um ancião" que "está envolto numa capa" (1 Samuel 28:12-14).
A mensagem que Saul ouve é a mesma de sempre, só que agora sem saída:
O reino já foi dado "ao teu companheiro Davi" (1 Samuel 28:17), e o anúncio final é curto: "amanhã, tu e teus filhos estareis comigo" (1 Samuel 28:19). Saul cai estendido no chão, sem forças, porque não comia havia um dia e uma noite (1 Samuel 28:20). A cena termina com um gesto inesperado: a médium insiste, mata um bezerro, assa pães e serve o rei condenado antes que ele saia de volta na escuridão (1 Samuel 28:21-25).
Ziclague em Cinzas (1 Samuel 29:1-30:6)
Enquanto isso, Davi marcha com os filisteus para Afeca, na retaguarda de Aquis (1 Samuel 29:2). Os príncipes filisteus desconfiam: "Estes hebreus, que fazem aqui?" (1 Samuel 29:3). Lembram o refrão das mulheres de Israel sobre os "dez milhares" de Davi e exigem que ele volte (1 Samuel 29:4-5). Aquis, constrangido, o manda embora, dizendo que aos seus olhos ele é "bom como um anjo de Deus" (1 Samuel 29:9). A desconfiança dos inimigos livra Davi de lutar contra Israel.
Mas, ao chegar a Ziclague no terceiro dia, Davi encontra a cidade queimada. Os amalequitas tinham levado as mulheres e as crianças, entre elas Ainoã e Abigail (1 Samuel 30:1-5). Os homens choram "até não terem mais forças para chorar" (1 Samuel 30:4), e a dor vira revolta contra o líder: falam em apedrejá-lo.
Aqui está a diferença entre os dois reis. Saul, sem resposta de Deus, foi atrás de uma médium. Davi, no pior dia da sua vida, sem casa, sem família e com os próprios homens contra ele, buscou forças no Senhor. É a mesma atitude de um salmo atribuído aos filhos de Corá: "Por que estás abatida, ó minha alma? … Espera em Deus, pois ainda o louvarei" (Salmos 42:5).
A Lei de Davi Sobre o Despojo (1 Samuel 30:7-31)
Davi pede ao sacerdote Abiatar a estola sacerdotal e consulta o Senhor: "Perseguirei eu o bando? Alcançá-lo-ei?" A resposta vem clara: "Persegue-o, porque, de fato, o alcançarás e tudo libertarás" (1 Samuel 30:7-8). Saul não recebeu resposta; Davi recebe.
Seiscentos homens partem, mas duzentos ficam exaustos no ribeiro de Besor (1 Samuel 30:9-10). No caminho, encontram um egípcio largado no campo, doente e sem comer havia três dias, servo de um amalequita. Eles lhe dão pão, água, figos e passas, e ele os leva até o acampamento inimigo (1 Samuel 30:11-16). Davi ataca de tarde até a tarde seguinte e recupera tudo: "Não lhes faltou coisa alguma, nem pequena nem grande" (1 Samuel 30:19).
Na volta, surge uma briga. Alguns homens, que o texto chama de "maus e filhos de Belial", não querem dividir o despojo com os duzentos que ficaram no ribeiro (1 Samuel 30:22). Davi responde lembrando de quem era a vitória:
E estabelece uma regra: "qual é a parte dos que desceram à peleja, tal será a parte dos que ficaram com a bagagem; receberão partes iguais" (1 Samuel 30:24). Ela vira "estatuto e direito em Israel" (1 Samuel 30:25). Já na conquista, a Lei mandava dividir a presa entre os que lutaram e o resto da congregação (Números 31:27). Davi aplica o mesmo espírito aos cansados.
- Busca forças em Deus quando todos estão contra ele (1 Samuel 30:6).
- Consulta o Senhor antes de agir (1 Samuel 30:8).
- Cuida de um estrangeiro abandonado, o egípcio doente (1 Samuel 30:11-12).
- Divide com quem ficou para trás, sem desprezar os cansados (1 Samuel 30:24).
- Reparte com os anciãos de Judá, mandando presentes a Hebrom e a outras cidades (1 Samuel 30:26-31).
A Queda no Monte Gilboa (1 Samuel 31)
Enquanto Davi recupera Ziclague, a profecia de En-Dor se cumpre. Os israelitas fogem diante dos filisteus e caem no monte Gilboa. Jônatas, Abinadabe e Malquisua, filhos de Saul, são mortos (1 Samuel 31:1-2). Saul é ferido pelos flecheiros e pede ao escudeiro que o mate. O escudeiro se recusa, e o rei se lança sobre a própria espada (1 Samuel 31:3-4).
As palavras de Davi em Zife se cumprem: o dia de Saul chegou, "descendo à batalha" (1 Samuel 26:10), sem que Davi levantasse a mão contra ele. Os filisteus cortam a cabeça do rei, levam as suas armas ao templo de Astarote e penduram o corpo no muro de Bete-Seã (1 Samuel 31:9-10). O primeiro rei de Israel termina exposto como troféu de guerra.

O livro, porém, não termina com a vergonha. Os moradores de Jabes-Gileade ouvem a notícia, caminham a noite inteira, tiram os corpos de Saul e dos filhos do muro, os sepultam debaixo de um arvoredo e jejuam sete dias (1 Samuel 31:11-13).
- 1 Samuel 27: Davi em Gate e em Ziclague, entre os filisteus.
- 1 Samuel 28:1-14: Saul, sem resposta de Deus, consulta a médium de En-Dor.
- 1 Samuel 28:15-25: a mensagem de Samuel e a última refeição de Saul.
- 1 Samuel 29: os príncipes filisteus mandam Davi embora.
- 1 Samuel 30:1-20: Ziclague queimada, Davi se reanima no Senhor e liberta os cativos.
- 1 Samuel 30:21-31: a lei da divisão do despojo e os presentes aos anciãos de Judá.
- 1 Samuel 31: a morte de Saul e dos filhos no Gilboa e a lealdade de Jabes-Gileade.
- Textos relacionados: Levítico 19:31; Números 31:27; Deuteronômio 18:10-12; 1 Samuel 11:1-11; 1 Samuel 26:10; 1 Crônicas 10:13-14; Salmos 42:5; Isaías 8:19.