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Série Gênesis a Apocalipse Estudo 87 de 89 publicados Ver o mapa da série →

Josué 9-10: O Engano dos Gibeonitas e o Dia em que o Sol Parou

Israel faz aliança com vizinhos disfarçados sem consultar a Deus. Mesmo assim, honra a palavra dada, defende Gibeão e vê o Senhor pelejar por ele num dia sem igual.

Um Engano, Uma Promessa e Uma Batalha sem Igual

Depois de Jericó e de Ai, Israel tinha renovado a aliança no monte Ebal, ouvindo toda a Lei de Moisés (Josué 8:34-35). Agora, a notícia das vitórias corria por Canaã, e os reis da terra reagem de duas formas. A maioria se une para lutar: "se ajuntaram eles de comum acordo, para pelejar contra Josué e contra Israel" (Josué 9:2). Mas uma cidade escolhe outro caminho.

Josué 9-10 conta como os moradores de Gibeão enganaram Israel para fazer uma aliança, como Israel cumpriu a palavra dada mesmo assim, e como essa promessa levou à batalha em que o sol se deteve. É uma história sobre decisões tomadas sem consultar a Deus, sobre o valor de um juramento e sobre um Deus que peleja pelo seu povo.

Embaixadores de Gibeão, com roupas e sandálias gastas e pão seco, apresentam-se a Josué no acampamento

Pão Seco e Sandálias Remendadas (Josué 9:3-15)

Os gibeonitas sabiam o que tinha acontecido a Jericó e a Ai (Josué 9:3). Sabiam também que Israel não podia fazer aliança com os povos da terra; a Lei dizia: "não farás com elas aliança, nem terás piedade delas" (Deuteronômio 7:2). Então montam um teatro. Vestem roupas velhas, calçam sandálias "velhas e remendadas", carregam odres rotos e consertados e levam pão "seco e bolorento" (Josué 9:4-5).

Chegam a Gilgal e dizem: "Chegamos de uma terra distante; fazei, pois, agora, aliança conosco" (Josué 9:6). Os israelitas desconfiam: "Porventura, habitais no meio de nós?" (Josué 9:7). Os visitantes falam do Senhor com palavras piedosas, citam o que ele fez no Egito e contra Seom e Ogue, e mostram as provas: o pão que estava "quente" quando saíram, os odres que "eram novos" (Josué 9:9-13). Curiosamente, não mencionam Jericó nem Ai. Quem vinha de longe não poderia saber de algo tão recente.

E então vem a frase que resume o erro:

Então, os israelitas tomaram da provisão e não pediram conselho ao Senhor.

Eles examinaram as provas com os próprios olhos e confiaram no que viram. Josué faz a paz, e os príncipes juram (Josué 9:15). Três dias depois, descobrem que os "estrangeiros" eram vizinhos e "moravam no meio deles" (Josué 9:16-17). O mesmo povo que tinha esperado as ordens de Deus em Jericó agora decide sozinho. Foi como em Ai, onde os espias também calcularam por conta própria. "Confia no Senhor de todo o teu coração e não te estribes no teu próprio entendimento" (Provérbios 3:5).


Uma Promessa que Precisava Ser Cumprida (Josué 9:16-27)

A congregação murmura contra os príncipes (Josué 9:18). Afinal, aquela aliança tinha sido feita com base numa mentira. Não seria o caso de anulá-la? A resposta dos líderes é firme: "Nós lhes juramos pelo Senhor, Deus de Israel; por isso, não podemos tocar-lhes" (Josué 9:19).

O juramento tinha sido feito em nome de Deus. Quebrá-lo seria desonrar esse nome, mesmo que a outra parte tivesse agido de má-fé. O Salmo 15 descreve quem pode habitar com Deus como aquele "que jura com dano próprio e não se retrata" (Salmos 15:4). Israel saiu perdendo com a promessa, mas manteve a palavra.

Os gibeonitas vivem, mas passam a ser "rachadores de lenha e tiradores de água para a congregação e para o altar do Senhor" (Josué 9:27). A explicação deles é honesta: "tememos muito por nossa vida por causa de vós e fizemos assim" (Josué 9:24). E entregam-se: "trata-nos segundo te parecer bom e reto" (Josué 9:25).

Os gibeonitas na história de Israel
O juramento de Josué 9 teve consequências por séculos. Nos dias de Davi, uma fome de três anos é ligada a Saul, que tentou exterminar os gibeonitas, embora "os filhos de Israel lhes tinham jurado poupá-los" (2 Samuel 21:2). Muito mais tarde, depois do exílio, homens de Gibeão aparecem trabalhando ao lado dos judeus na reconstrução dos muros de Jerusalém (Neemias 3:7). O povo que entrou em Israel pela mentira acabou servindo junto à casa de Deus.
Raabe e os gibeonitas
Muitos leitores comparam os gibeonitas a Raabe. Os dois reconhecem o que o Senhor fez no Egito e contra Seom e Ogue (Josué 2:10; 9:9-10), e os dois são poupados do juízo e passam a viver no meio de Israel. A diferença é que Raabe agiu com fé declarada, enquanto os gibeonitas recorreram ao engano. Mesmo assim, o texto mostra que Deus não fecha a porta a quem, de fora, busca abrigo no seu povo.

Josué Defende Gibeão (Josué 10:1-11)

A paz com Gibeão assusta os reis vizinhos, porque Gibeão "era cidade grande como uma das cidades reais" e os seus homens eram valentes (Josué 10:2). Adoni-Zedeque, rei de Jerusalém, convoca os reis de Hebrom, Jarmute, Laquis e Eglom. Cinco reis amorreus cercam Gibeão (Josué 10:3-5).

Os gibeonitas pedem socorro: "Não retires as tuas mãos de teus servos; sobe apressadamente a nós" (Josué 10:6). Josué poderia ter visto ali uma saída conveniente para uma aliança que nunca deveria ter feito. Mas ele cumpre o que prometeu. Marcha a noite inteira desde Gilgal e chega de surpresa (Josué 10:9). Antes da batalha, Deus confirma: "Não os temas, porque nas tuas mãos os entreguei" (Josué 10:8).

O texto deixa claro quem vence: "O Senhor os conturbou diante de Israel" (Josué 10:10). Na fuga, na descida de Bete-Horom, Deus faz cair do céu "grandes pedras", e "mais foram os que morreram pela chuva de pedra do que os mortos à espada pelos filhos de Israel" (Josué 10:11).

Uma tempestade de granizo cai sobre o exército amorreu em fuga na descida de Bete-Horom

Sol, Detém-te em Gibeão (Josué 10:12-15)

No meio da batalha, Josué faz um pedido que ninguém tinha feito antes. Diante de todo o povo, ele fala ao Senhor e diz: "Sol, detém-te em Gibeão, e tu, lua, no vale de Aijalom" (Josué 10:12). E o texto diz que o sol "se deteve no meio do céu e não se apressou a pôr-se, quase um dia inteiro" (Josué 10:13).

Não houve dia semelhante a este, nem antes nem depois dele, tendo o Senhor, assim, atendido à voz de um homem; porque o Senhor pelejava por Israel.

O ponto alto do versículo não é só o fenômeno no céu, mas a frase "tendo o Senhor, assim, atendido à voz de um homem". O Deus que criou o sol e a lua ouviu a oração de Josué. E a razão é dita com clareza: "o Senhor pelejava por Israel". O profeta Habacuque, séculos depois, recorda essa imagem ao cantar o poder de Deus: "O sol e a lua param nas suas moradas" (Habacuque 3:11).

O Livro dos Justos
O narrador pergunta: "Não está isto escrito no Livro dos Justos?" (Josué 10:13). Era uma antiga coleção de cantos e poemas de Israel, hoje perdida. A Bíblia a cita mais uma vez, quando Davi lamenta a morte de Saul e Jônatas com o "Hino ao Arco, o qual está escrito no Livro dos Justos" (2 Samuel 1:18). As palavras de Josué ao sol e à lua têm forma de poesia, e por isso os intérpretes discutem como entender o que aconteceu: um prolongamento milagroso da luz do dia, um escurecimento que favoreceu Israel, ou linguagem poética para uma vitória extraordinária. Em todas as leituras, o texto atribui a vitória a Deus.

Os Cinco Reis e a Conquista do Sul (Josué 10:16-43)

Os cinco reis fogem e se escondem numa caverna em Maquedá. Josué manda fechar a entrada com grandes pedras e continuar a perseguição (Josué 10:16-19). Depois, os reis são trazidos, e os capitães de Israel põem o pé sobre o pescoço deles, um antigo gesto de vitória sobre o inimigo derrotado. Josué explica o sentido do gesto com as mesmas palavras de ânimo que ouviu de Deus: "Não temais, nem vos atemorizeis; sede fortes e corajosos, porque assim fará o Senhor a todos os vossos inimigos" (Josué 10:25).

O restante do capítulo é um resumo rápido da campanha no sul: Maquedá, Libna, Laquis, Eglom, Hebrom e Debir caem uma após a outra (Josué 10:28-39). A repetição das frases dá ritmo ao relato e mostra que a vitória em Gibeão abriu toda a região. O resumo final repete a ideia central do capítulo:

E, de uma vez, tomou Josué todos estes reis e as suas terras, porquanto o Senhor, Deus de Israel, pelejava por Israel.

Como em Jericó e em Ai, as palavras de destruição total destes versículos são difíceis para o leitor de hoje. O livro as apresenta como cumprimento de uma ordem específica para a conquista de Canaã (Josué 10:40), e não como modelo de conduta. E o capítulo termina onde começou a campanha: "Josué, e todo o Israel com ele, voltou ao arraial em Gilgal" (Josué 10:43).

Conclusão: consultar a Deus e cumprir a palavra
Josué 9-10 começa com um erro e termina com uma vitória. O erro foi decidir sem perguntar a Deus, confiando em provas que pareciam boas. Mas, depois do erro, Israel fez o que era certo: honrou a promessa feita em nome do Senhor e defendeu quem tinha posto a vida nas suas mãos. E foi justamente nesse caminho de fidelidade que Deus agiu como nunca. Há decisões que tomamos sem orar, confiando apenas no que vemos? E há promessas que custam caro, mas que precisamos cumprir? "Seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não" (Mateus 5:37).
Referências Bíblicas
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