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Série Gênesis a Apocalipse Estudo 110 de 114 publicados Ver o mapa da série →

I Samuel 25-26: Abigail, Nabal e a Segunda Chance de Saul

Ofendido por Nabal, Davi sai para se vingar e é detido pela prudência de Abigail. Pouco depois, tem Saul dormindo aos seus pés e, de novo, não estende a mão contra o ungido.

Duas Vezes Diante da Vingança

No estudo anterior, Davi teve Saul nas mãos dentro de uma caverna em En-Gedi e se limitou a cortar a orla do manto do rei (1 Samuel 24:4). Saul chorou e reconheceu: "Mais justo és do que eu; pois tu me recompensaste com bem, e eu te paguei com mal" (1 Samuel 24:17). Parecia o fim da perseguição. Não foi.

Os capítulos 25 e 26 colocam Davi duas vezes diante da mesma tentação: resolver as coisas com a própria espada. Na primeira, o ofensor é um fazendeiro rico e grosseiro, e Davi quase cede. Quem o segura é uma mulher sensata que sai ao seu encontro no caminho. Na segunda, o perseguidor é de novo o rei, dormindo no meio do acampamento. A pergunta que liga as duas histórias é antiga e atual: o que fazer quando alguém nos paga o bem com o mal?

No tempo da tosquia, Nabal recusa com desprezo o pedido dos mensageiros de Davi, enquanto servos tosquiam ovelhas

Samuel Morre, Nabal Ofende (1 Samuel 25:1-13)

O capítulo começa com uma notícia curta e pesada: "Faleceu Samuel; todos os filhos de Israel se ajuntaram, e o prantearam, e o sepultaram na sua casa, em Ramá" (1 Samuel 25:1). O profeta que tinha ungido Saul e depois Davi sai de cena. Desde menino ele julgou Israel "todos os dias de sua vida" (1 Samuel 7:15). Agora não há mais quem fale por Deus entre o rei rejeitado e o rei escolhido.

A história passa para o sul de Judá. Em Maom vive Nabal, dono de três mil ovelhas e mil cabras, que tosquiava o rebanho no Carmelo (1 Samuel 25:2). O narrador apresenta o casal em uma frase: a mulher, Abigail, "era sensata e formosa, porém o homem era duro e maligno em todo o seu trato" (1 Samuel 25:3).

O Carmelo de Judá e o tempo da tosquia
Este Carmelo não é o monte Carmelo do norte, onde Elias enfrentaria os profetas de Baal. É uma pequena cidade nas colinas ao sul de Hebrom, perto de Maom e da região de Zife. A tosquia era um tempo de fartura e festa para os criadores de ovelhas: a lã era vendida e havia comida para os trabalhadores. Anos depois, Absalão também aproveitaria uma festa de tosquia para reunir os filhos do rei (2 Samuel 13:23). Era o momento natural para um pedido como o de Davi.

Davi e seus homens viviam no deserto, perto dos pastores de Nabal, e os tinham protegido. Davi manda dez moços com uma saudação de paz e um pedido modesto: "dá, pois, a teus servos e a Davi, teu filho, qualquer coisa que tiveres à mão" (1 Samuel 25:8). A resposta de Nabal é um insulto:

Quem é Davi, e quem é o filho de Jessé? Muitos são, hoje em dia, os servos que fogem ao seu senhor.

Nabal sabe muito bem quem é Davi; está chamando-o de escravo fugido. E fala do que tem como se fosse só dele: "o meu pão, e a minha água, e a carne das minhas reses" (1 Samuel 25:11). A reação de Davi é imediata: "Cada um cinja a sua espada" (1 Samuel 25:13). Quatrocentos homens sobem com ele. O mesmo Davi que poupou o rei agora vai matar um fazendeiro por causa de um desaforo.


Abigail no Caminho (1 Samuel 25:14-35)

Um dos servos de Nabal corre até Abigail. Ele confirma que os homens de Davi "nos têm sido muito bons" e que "de muro em redor nos serviram, tanto de dia como de noite" (1 Samuel 25:15-16). E diz do patrão o que ninguém tinha coragem de dizer na cara dele: "é filho de Belial, e não há quem lhe possa falar" (1 Samuel 25:17).

Abigail não perde tempo. Junta pães, vinho, ovelhas preparadas, trigo tostado, passas e figos, carrega os jumentos e sai, sem avisar o marido (1 Samuel 25:18-19). Davi, enquanto isso, desce a montanha jurando não deixar vivo nenhum homem da casa de Nabal (1 Samuel 25:22). Os dois se encontram numa curva do caminho.

Abigail desce do jumento, se prostra e começa um dos discursos mais longos de uma mulher no Antigo Testamento (1 Samuel 25:24-31). Ela assume a culpa, pede para ser ouvida e chama o marido pelo que ele é: "o que significa o seu nome ele é. Nabal é o seu nome, e a loucura está com ele" (1 Samuel 25:25).

Nabal, "o insensato"
Em hebraico, nabal quer dizer "tolo", "insensato". Na Bíblia, o insensato não é quem tem pouca inteligência, mas quem vive como se Deus não existisse e despreza os outros. É a mesma palavra de "Diz o insensato no seu coração: Não há Deus" (Salmos 14:1). Abigail joga com o nome: o homem é exatamente o que se chama.

Mas o centro do discurso não é Nabal, é Davi. Abigail lembra a ele quem ele é e o que Deus prometeu: "o Senhor te fará casa firme, porque pelejas as batalhas do Senhor" (1 Samuel 25:28). Se Davi derramar sangue por vingança, isso vai pesar na consciência do futuro rei (1 Samuel 25:30-31). Ela fala como profetisa num tempo em que Samuel acabou de morrer.

Bendita seja a tua prudência, e bendita sejas tu mesma, que hoje me tolheste de derramar sangue e de que por minha própria mão me vingasse.

Davi ouve. Reconhece que foi Deus quem enviou Abigail (1 Samuel 25:32), recebe o presente e a manda para casa em paz (1 Samuel 25:35). Há uma grandeza nisso também: um homem armado, com quatrocentos guerreiros atrás, aceita ser corrigido por uma mulher no meio da estrada. "A resposta branda desvia o furor" (Provérbios 15:1).

Abigail, a mediadora
A tradição judaica conta Abigail entre as profetisas de Israel, por causa das palavras sobre a "casa firme" de Davi, que se cumprem na promessa de 2 Samuel 7:11. Muitos leitores cristãos veem nela também uma figura de mediação: alguém que se coloca entre o ofendido e o culpado e diz "caia a culpa sobre mim" (1 Samuel 25:24). É uma leitura de aplicação; o texto, em si, a apresenta como uma mulher prudente que age rápido e evita um massacre.

Deus Faz a Justiça (1 Samuel 25:36-44)

Abigail volta e encontra o marido dando "um banquete, como banquete de rei", completamente bêbado (1 Samuel 25:36). O homem que não quis repartir com Davi festeja como se fosse o rei. Ela espera a manhã. Quando Nabal ouve o que aconteceu, "se amorteceu nele o coração, e ficou ele como pedra" (1 Samuel 25:37). Dez dias depois, "feriu o Senhor a Nabal, e este morreu" (1 Samuel 25:38).

A reação de Davi mostra que ele entendeu a lição: "Bendito seja o Senhor, que pleiteou a causa da afronta que recebi de Nabal e me deteve de fazer o mal" (1 Samuel 25:39). Davi não precisou levantar a espada. Deus tratou de Nabal, e Davi ficou com as mãos limpas.

Ele então manda pedir Abigail em casamento, e ela aceita com a mesma humildade com que o tinha recebido no caminho (1 Samuel 25:41-42). O capítulo termina com uma nota sobre a família de Davi: ele também se casou com Ainoã de Jezreel, e Saul tinha dado Mical, a primeira mulher de Davi, a outro homem (1 Samuel 25:43-44). A Bíblia registra esses casamentos sem aprová-los; mais adiante, a casa dividida de Davi vai lhe trazer muita dor. De Abigail nasceria Quileabe, o segundo filho de Davi (2 Samuel 3:3).


A Lança e a Bilha (1 Samuel 26:1-16)

O capítulo 26 começa como um eco do 23: os zifeus vão de novo a Saul contar onde Davi está (1 Samuel 26:1; compare 1 Samuel 23:19). Saul esquece o que prometeu em En-Gedi e desce ao deserto de Zife com três mil homens escolhidos (1 Samuel 26:2).

Davi manda espias, descobre o acampamento e decide entrar nele à noite. Só Abisai, sobrinho de Davi e irmão de Joabe, aceita ir com ele (1 Samuel 26:6). Eles encontram Saul dormindo no centro, com a lança fincada na terra à cabeceira, e o exército inteiro em volta, dormindo também (1 Samuel 26:7). Abisai vê ali a resposta de Deus:

Deus te entregou, hoje, nas mãos o teu inimigo; deixa-me, pois, agora, encravá-lo com a lança, ao chão, de um só golpe; não será preciso segundo.

Davi recusa de novo, e explica por quê: "quem haverá que estenda a mão contra o ungido do Senhor e fique inocente?" (1 Samuel 26:9). Ele deixa o fim de Saul nas mãos de Deus: "este o ferirá, ou o seu dia chegará em que morra, ou em que, descendo à batalha, seja morto" (1 Samuel 26:10). Davi leva só a lança e a bilha de água. Ninguém acorda, "pois todos dormiam, porquanto, da parte do Senhor, lhes havia caído profundo sono" (1 Samuel 26:12).

À noite, no acampamento, Davi pega a lança e a bilha de água junto à cabeceira de Saul adormecido, enquanto Abisai observa

Do alto do monte do outro lado, Davi grita para Abner, o comandante do exército, e zomba dele: o guarda-costas do rei dormiu enquanto alguém entrava para matar o rei. A prova está ali: "vede, agora, onde está a lança do rei e a bilha da água" (1 Samuel 26:16).

En-Gedi e Zife: a mesma escolha duas vezes

"Pequei", e Cada Um Segue o Seu Caminho (1 Samuel 26:17-25)

Saul reconhece a voz: "Não é a tua voz, meu filho Davi?" (1 Samuel 26:17). Davi pergunta o que fez de errado e lamenta que o estejam expulsando "da herança do Senhor", como se lhe dissessem: "Vai, serve a outros deuses" (1 Samuel 26:19). Para um israelita, ser lançado fora da terra era ser afastado do lugar de adoração. Ele se compara a "uma pulga" e a uma perdiz caçada nos montes (1 Samuel 26:20).

A confissão de Saul é a mais completa de toda a sua história:

Pequei; volta, meu filho Davi, pois não tornarei a fazer-te mal; porque foi, hoje, preciosa a minha vida aos teus olhos. Eis que tenho procedido como louco e errado excessivamente.

Saul diz que agiu "como louco", a mesma ideia que deu nome a Nabal. Mas Davi não volta. Devolve a lança e entrega a sua causa a Deus: "Pague, porém, o Senhor a cada um a sua justiça e a sua lealdade" (1 Samuel 26:23). Ele pede que, assim como poupou a vida de Saul, o Senhor guarde a dele (1 Samuel 26:24). Saul o abençoa: "grandes coisas farás e, de fato, prevalecerás" (1 Samuel 26:25). É a última vez que os dois se veem. "Então, Davi continuou o seu caminho, e Saul voltou para o seu lugar."

O Novo Testamento descreve a atitude de Jesus com palavras que lembram esse Davi: "quando ultrajado, não revidava com ultraje; quando maltratado, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente" (1 Pedro 2:23).

Conclusão: entregar a causa a Deus
Davi poupou o rei em En-Gedi, mas quase matou Nabal por um insulto. A lição aprendida num dia precisou ser reaprendida no outro, e Deus usou uma mulher prudente para isso. Depois do encontro com Abigail, Davi viu Deus fazer justiça sem que ele levantasse a espada, e em Zife repetiu a escolha certa com mais clareza. Também nós aprendemos aos poucos. Quando alguém nos paga o bem com o mal, a tentação é responder na mesma moeda. Estas duas histórias convidam a ouvir quem nos chama à razão, a não confundir oportunidade com permissão de Deus e a deixar com o Senhor a causa que só ele pode julgar.
Referências Bíblicas
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